terça-feira, 8 de novembro de 2011

Einstein e Bill Gates

Crônica do professor Sergio Mascarenhas.
Recentemente o Ministério de Ciência e Tecnologia passou a denominar-se Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. A mudança foi adequada? Embora o Ministro anterior, um dos melhores que o Brasil já teve Sérgio Machado Rezende, tivesse prestigiado fortemente a Inovação, inclusive criando uma Secretaria especial somente para Inovação, e indicado para ela um grande cientista, Ronaldo Mota, que, aliás, continua nessa função com o presente ministro, acho que a mudança do nome foi oportuna e gostaria de aproveitar para discutir o tema, da maior importância para o desenvolvimento não só da Ciência e Tecnologia mas da Educação em geral.

Para isso vou me valer de dois símbolos da sociedade global, Einstein e Bill Gates, que ladeiam a figura de Janus, o único Deus Romano, não copiado da mitologia grega, com seus dois instigantes e filosóficos olhares, um para o passado outro para o futuro.

Começo pelo cenário da história da ciência e tecnologia: a convergência temporal das duas é a característica principal dos tempos atuais. Enquanto as leis da eletricidade e magnetismo foram estabelecidas por Faraday e Maxwell nas quais se baseia o funcionamento do motor elétrico, cerca de 4 décadas foram necessárias para o seu pleno desenvolvimento tecnológico. Mas o tempo entre a descoberta das ondas eletromagnéticas e suas aplicações já foi mais curto, apenas duas décadas, entretanto no mesmo ano que o laser essa fabulosa fonte de luz foi inventado já houve aplicações tecnológicas para o mesmo!

Hoje a característica de nossa era séc. XXI é a vida curta de produtos, processos e serviços característica da economia globalizada impulsionada pelos negócios que exigem competitividade acelerada. O cerne dessa convergência, a sua força motora é a Inovação tornada permanente, necessária, característica fundamental do dinamismo dessa interação entre ciência e tecnologia. Mas nossa sociedade ou melhor na cultura brasileira , temos características de inovação? Claro que temos, no Futebol, no Carnaval certamente.

Ocorre entretanto que os nossos jovens talentos não foram educados para a cultura dinâmica da Ciência, Tecnologia e Inovação. Uma razão óbvia pode ser encontrada por uma simples visão da nossa sociedade: campos de pelada em todo o Brasil, nas cidades, nas periferias, em qualquer esquina desocupada. Carnaval começa logo depois que acaba pela continuidade das escolas e sociedades carnavalescas. Há até um sinergismo entre futebol e Carnaval as torcidas tipo Gaviões da Fiel são também transformadas em Escolas de Samba no Carnaval!

Mas nas escolas com e minúsculo, isto é do sistema educacional a ciência e a tecnologia são poucas e a inovação quer seja nos métodos, quer nos processos de ensino - aprendizagem que  somente recentemente despontam tímidos , numa infra-estrutura de escolas de curto tempo, não a Escola Parque sonhada por Anísio Teixeira , mas a Escola mínima cartorial, da violência e bullying na sala de aula , sem tecnologia educacional moderna, com professores portadores da  do que chamo Síndrome dos 4 Medos: 1 -Medo do aluno, 2 - medo do seu desamparo em técnicas e conteúdos didático -pedagógicos, 3 - medo do conhecimento avassalador que jorra pela internet e 4 - medo de seu futuro  social como carreira, desprezada que foi não somente pelo Estado mas até pelos sistemas privados que os escravizam com salários irrisórios e cargas didáticas intensas.

Mas nosso tema é a Inovação! Mas como inovar em um ambiente desses sem qualquer motivação seja para Einsteins ou Bill Gates? Recentemente a Universidade Rockefeller recebeu o seu vigésimo sexto Prêmio Nobel, dessa vez em medicina, uma única Universidade em New York 26 prêmios-Nobel! O Brasil não tem sequer um Nobel, nem mesmo em Humanidades, a menos que se considere a copa do Mundo equivalente ao Nobel e os festejos carnavalescos como tal! Falta mesmo é educação para Ciência, Tecnologia e Inovação, uma nova cultura diferente dessa que recebemos de nossos colonos machistas, escravagistas e exploradores de nossas riquezas naturais sem lhes agregar quaisquer inovações.

Somente a Embrapa em tempos recentes acordou para essa visão e o fez pela Ciência, Tecnologia e Inovação, provando que sem Einsteins inovadores não teremos os Bill Gates empresariais, pelo menos em número e qualidade suficientes para inserção virtuosa no Mundo Globalizado.

Estou há tempos propondo uma Rede de Agências Multimídia, associada a uma Rede de Centros e Museus de Ciências e Tecnologia com Centrais de Produção nas Cinco Regiões do Brasil para difusão da Ciência, Tecnologia, Inovação tanto na Educação como nas empresas para sairmos desse atraso histórico.

Quem sabe a angustiada solicitação da Academia Brasileira de Ciências e da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) por uma participação no pré-sal possa ser ouvida para essa finalidade? Seria um grande momento na história do Brasil, mas teria que ser ouvido no meio da gritaria dos estados produtores e não-produtores sem explicitações de missões como essa que discutimos em prol da Ciência, Tecnologia, Inovação na Educação.

Esperemos que desprezada pelos ilustres senadores a sugestão da SBPC-ABC possa ser atendida pela Câmara Federal o que constituir-se-a numa decisão histórica tão importante como a da Independência Brasileira, desta vez dos grilhões do subdesenvolvimento.

Sérgio Mascarenhas é professor e coordenador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), presidente Honorário SBPC e Membro Titular ABC.

sábado, 5 de novembro de 2011

Entidades científicas fazem novo ato público em favor da Educação e C,T&I

Mobilização da SBPC e ABC acontece na próxima segunda-feira (7), em São Paulo. Participe! 

A SBPC e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) realizam na próxima segunda-feira (7), em São Paulo, um ato público para tentar reverter o quadro atual de distribuição dos royalties do petróleo que não inclui um percentual de destinação para as áreas de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I).

O evento será realizado na sede da SBPC - palco da luta pela redemocratização do País - e reunirá dirigentes de instituições de ensino e C,T&I, docentes, pesquisadores, parlamentares e autoridades dos governos estadual e federal. O evento é aberto ao público.

Em carta encaminhada aos convidados, a SBPC ressalta que o Senado, ao aprovar Projeto de Lei 448 sem definir recursos para educação e C,T&I, deu as costas para as futuras gerações, uma vez que esses recursos deveriam ser usados principalmente para suprir as graves carências do sistema brasileiro de ensino, especialmente na educação básica e no ensino técnico. Além disso, investimentos em C,T&I são imprescindíveis para que a economia brasileira se torne moderna e sustentável e sua produção tenha competitividade nos mercados globais.

"Não houve por parte do Senado sensibilidade para entender que este pleito visava proteger as futuras gerações da nação brasileira, que clama por mais acesso ao conhecimento", afirmou a presidente da SBPC, Helena Nader, lembrando que isso "só poderá ser alcançado com educação de qualidade baseada na apropriação da capacidade de gerar avanços científicos e tecnológicos."

O ato público da SBPC e da ABC será realizado das 14h30 às 17h30, na sede da SBPC (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, São Paulo, SP). Os interessados em participar devem confirmar presença pelo tel. (11) 3355-2130.

Nota da redação - A petição pública da SBPC e ABC em defesa de recursos específicos para Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) na distribuição dos royalties do petróleo a ser extraído da camada pré-sal permanece ativa. Para subscrever o documento acesse o abaixo-assinado disponível emhttp://www.peticaopublica.com.br/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=PL8051.

(Ascom da SBPC e JC)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Governo pressiona setor privado para bancar bolsa de estudo

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79954

Com a ajuda dos secretários-executivos dos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) intensificou nas últimas semanas os esforços para conseguir a adesão do empresariado ao programa Ciência Sem Fronteiras. 

A ordem é da presidente Dilma Rousseff, que pretende marcar sua gestão com avanços na educação e no crescimento da oferta de mão de obra qualificada. O programa foi montado para ter adesão privada, mas ela está demorando.

A pressão sobre alguns setores, como os bancos, conta com a participação da própria presidente. A iniciativa privada, no entanto, ainda tem dúvidas quanto aos valores das bolsas que serão oferecidas no exterior aos estudantes de graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado e pesquisadores.

O programa Ciência Sem Fronteiras tem como objetivo levar 100 mil bolsistas brasileiros às principais universidades do mundo até o fim de 2014 para estudar em cursos considerados estratégicos para o desenvolvimento brasileiro. O governo oferecerá 75 mil bolsas por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e quer que a iniciativa privada financie as outras 25 mil.

A presidente está envolvida pessoalmente na mobilização. Em viagens internacionais e contatos com autoridades estrangeiras, tem passado o recado de que gostaria de ver os bolsistas brasileiros nas universidades dos países de seus interlocutores. Dilma também já cobrou o apoio do empresariado publicamente. Em julho, durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o principal alvo foi a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

"Espero contar com a participação de todos", disse a presidente na ocasião. "É um desafio para o setor privado, especialmente para a Febraban. Viu, Murilo Portugal [presidente da entidade]? Falo no Murilo Portugal, porque ele já esteve na Secretaria do Tesouro e sabe perfeitamente o que representa, para um país como o Brasil, destinar R$ 3,1 bilhões para este programa. Acho importante a participação do setor privado", afirmou Dilma.

Ao lado de outras associações setoriais e empresas, a Febraban é uma das entidades na mira da Casa Civil. Portugal já participou de reuniões com a ministra Gleisi. Também já foram procurados representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), da Eletrobras e da Vale.

"O desenvolvimento de recursos humanos é uma das grandes prioridades, se não a grande prioridade, que temos na Abdib. É o grande desafio da área de infraestrutura", disse o vice-presidente-executivo da entidade, Ralph Lima Terra, que esteve no Palácio do Planalto para debater o assunto. "Isso é fundamental para o desenvolvimento do país."

O diretor de operações do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Gustavo Leal Sales Filho, afirmou que a CNI deve começar até o fim do ano um "road show" pelos Estados para tentar mobilizar os empresários. As duas entidades querem financiar o estudo de engenheiros que já trabalham no setor produtivo, e precisam de especialização, e também de recém-formados, que poderão ser aproveitados pelas empresas ao retornarem do exterior. "Essa é uma questão crucial para o País", afirmou Sales Filho. Segundo ele, o setor industrial poderá custear até 10 mil bolsas.

O diretor de relações internacionais da Capes, Márcio de Castro Silva Filho, conta que o programa Ciência Sem Fronteiras surgiu depois da visita do presidente americano Barack Obama a Brasília. Segundo ele, Obama perguntou à presidente brasileira por que não há muitos brasileiros estudando nos EUA, se atualmente existem 130 mil chineses e 120 mil indianos nas universidades americanas.

"Agora, os próprios alunos pressionam as universidades para criar comitês de seleção. E os pró-reitores viram a importância da internacionalização das universidades", afirmou Silva Filho. Segundo ele, os primeiros estudantes beneficiados serão enviados a universidades dos EUA e a segunda etapa do programa também envolverá universidades da Alemanha, França e Reino Unido.

As metas da Capes e do CNPq já foram definidas. Subordinada ao Ministério da Educação, a Capes deve ofertar 3,4 mil bolsas do Ciência Sem Fronteiras neste ano. A previsão para 2012, 2013 e 2014 é de, respectivamente, 10,2 mil, 12,2 mil e 14, 2 mil bolsas.

O CNPq, órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, oferecerá 3.890 bolsas neste ano, 6.140 em 2012, 10.230 em 2013 e 14.740 bolsas no último ano do governo da presidente Dilma. "Vamos atingir certamente esses números, sem comprometer outros programas", disse o diretor da Capes.

As áreas contempladas pelo programa são engenharia, matemática, ciências biomédicas e da saúde, química, biologia, geociências, computação e tecnologia da informação, tecnologia aeroespacial, farmacologia, agronomia, produção de petróleo, gás, carvão e energias renováveis, biotecnologia, nanotecnologia, tecnologias de prevenção e mitigação de desastres naturais, biologia e ciências do mar.
(Valor Econômico)

sábado, 29 de outubro de 2011

POR QUE É QUE A GENTE É ASSIM ?

POR QUE É QUE A GENTE É ASSIM?
É na Escola de Engenharia que começa a ser destruída a nossa auto-estima. É na Escola de Engenharia que começa a ser forjado o nosso comportamento autodestrutivo, nosso desprezo pelos valores da própria profissão, nosso desgosto com a nossa própria atividade profissional. É na Escola de Engenharia que nasce a nossa falta de coragem empresarial e essa submissão inaceitável aos caprichos dos clientes.

Engenheiros, Médicos, Arquitetos, Advogados, Agrônomos, Dentistas...
Uma coisa leva à outra: toda vez que, numa conversa qualquer, o assunto “comportamento no mercado” vem à tona acabamos caindo nas inevitáveis comparações de engenheiros, arquitetos e agrônomos com médicos, dentistas e advogados...

Quando me perguntam o que eu acho disso (dessa comparação de profissionais tão diferentes) respondo sempre a mesma coisa: acho que essa comparação é JUSTÍSSIMA.
Se eu, engenheiro, por qualquer motivo, tiver de ser comparado com outros profissionais, acho muito justo que seja com médicos, com dentistas ou com advogados. Afinal temos muito mais coisas em comum do que diferenças. Somos todos prestadores de serviços. Nosso produto (nosso serviço) é altamente especializado e todas essas atividades demandam profissionais com capacidade intelectual diferenciada. Ninguém chega a ser médico, advogado, dentista, agrônomo, arquiteto ou engenheiro apenas por ter um belo par de olhos, uma voz doce, algum dinheiro no banco ou um padrinho influente... A conquista de qualquer um desses títulos demanda qualidades e habilidades especiais, muito estudo e empenho (às vezes até muitos sacrifícios).

Temos, é verdade, muitas semelhanças, quando a comparação é feita no nível da qualificação. Porém, no exercício das profissões e no comportamento empresarial de cada grupo as diferenças aparecem e são enormes. Neste texto concentramos nossas reflexões sobre a formação dos profissionais de Engenharia. No entanto, nossa experiência e a convivência com milhares de arquitetos e agrônomos dos mais distantes lugares do Brasil nos permitem acreditar que os conceitos podem se estender sem problemas também para esses profissionais. Voltemos no tempo.

Voltemos ao tempo em que essa pessoa (que hoje é um engenheiro) tinha seus quinze, dezesseis anos, um ou dois anos antes do vestibular. Esse moço ou essa moça é, muito provavelmente, um dos melhores alunos da sua sala (talvez da escola). É um expoente estudantil, requisitado pelos colegas, elogiado pelos professores, respeitado pelos pais (de quem é motivo de muito orgulho) valorizado pelos parentes, pelos vizinhos, admirado pelas garotas (ou garotos).

Comparemos nosso amiguinho com o estudante de quinze ou dezesseis anos que virá a ser médico, dentista ou advogado.

Veremos quase nenhuma diferença.

É isso mesmo. Na origem, são todos iguais. Têm o mesmo perfil, a mesma história, o mesmo rendimento. Todos são brilhantes e bem sucedidos.

Vem o vestibular. Ingressa, cada qual, na faculdade que escolheu... E é aí que as diferenças começam a aparecer. Os estudantes de medicina e de odontologia são enquadrados em um ambiente novo, com pessoas que se vestem de uma maneira diferente, se comportam de uma maneira diferente e que estabelecem uma identidade visual (e, por decorrência, uma identidade psicológica) com a atividade profissional que irão exercer alguns anos depois.

Os estudantes de direito, já nos primeiros meses de escola convivem com professores que vêm para as aulas de terno, gravata, sapato social, barba feita ou bem cuidada. E o mais interessante: aqueles senhores e senhoras respeitáveis, bem vestidos e de fina educação (os professores), tratam os seus alunos por “senhor” ou “senhora”, com toda a fineza e educação que a prática profissional recomenda. E estimulam seus alunos a acreditar e se convencerem de que são superiores. Que estão se preparando para “falar com o Estado” (privilégio que não é concedido a nenhum outro profissional...). Enfim, aprendem que precisam respeitar os outros, mas aprendem, antes de tudo, que precisam exigir respeito para si.
Nos últimos anos de faculdade, estudantes de odontologia e medicina já se vestem como se médicos ou dentistas fossem. Freqüentam clínicas e atuam como profissionais na área da saúde. Assumem, enfim, um ou dois anos antes de terminada a faculdade, todo um comportamento típico de médico. De dentista.

Os estudantes de Direito, por sua vez, a partir da Segunda metade do curso, já se vestem como advogados (roupa social, sapato, eventualmente gravata e um terno ou blazer...). Mantém com os seus professores e com os seus colegas um comportamento e um vocabulário apropriados para as lides jurídicas. E, o mais importante: são tratados, pelos seus professores, como Doutor. (Dr. Fulano, termine seu relatório até a próxima aula. Dr. Sicrano, esteja preparado para a prova final, na sexta-feira.). Apesar de ainda não terem concluído o curso.



Os estudantes de engenharia, ao contrário, a partir do início do curso, a única diferença que eles conseguem perceber na faculdade, em relação ao ensino médio é o grau de dificuldade (que simplesmente quintuplica!).

Não existe nenhum estímulo a um comportamento novo, nenhuma referência, um exemplo positivo de comportamento. Nenhuma motivação para um desenvolvimento psicológico alternativo. Nenhum elemento que interfira na formação do profissional do ponto de vista da sua imagem física composta de aspectos visuais e comportamentais. A vida social, no ambiente da faculdade, é muito restrita, quando não inexistente.

Além do mais, a faculdade entra na vida desses jovens como um elemento de ruptura. Os alunos são colocados em uma condição a que eles não estavam acostumados. Estavam acostumados a tirar notas máximas com a maior facilidade e, de repente, passam a sofrer e ter grandes dificuldades para obter notas mínimas ou médias. Deixam de ser respeitados pelos seus professores que se tornam distantes e autoritários e perdem a admiração dos colegas que estão todos desesperados tentando se salvar de uma coisa que ainda não estão entendendo direito.

Não que as faculdades de medicina, direito ou odontologia sejam fáceis. Ocorre que lá os estudantes têm compensações psicológicas que os estudantes de engenharia não têm. Essas faculdades, por diversos mecanismos, inexistentes nas escolas de engenharia, dão continuidade ao amadurecimento psicológico e social do futuro profissional. E, com isto, mantêm em alta a motivação e auto-estima dos seus estudantes.
Na engenharia não existe nenhum processo de acompanhamento psicológico para aquele estudante desesperado que teve a sua carreira de sucesso estudantil subitamente interrompida (mesmo os alunos que continuam conquistando notas altas, acabam sentindo a falta do aplauso dos colegas, do respeito dos professores e da admiração coletiva). E não existe ninguém para explicar o que está acontecendo. Ninguém para dizer a este estudante que ele não é tão inepto ou incapaz como, algumas vezes os professores parecem querer provar.
É quase geral, por parte dos professores, nas escolas de engenharia, a manifestação desnecessária de superioridade intelectual, o exercício gratuito de poder e o terrorismo psicológico.

E o estudante, que entrou na faculdade no auge positivo da auto-estima, vai recebendo, ao longo de cinco anos, das mais variadas formas, uma única mensagem: “Você não é tão bom quanto você pensava que fosse !”.
Ao contrário dos estudantes de direito, medicina ou odontologia, que têm como professores, profissionais que atuam no dia-a-dia de suas atividades, os estudantes de engenharia passam cinco anos submetidos aos rigores (e, em alguns casos, caprichos) de engenheiros que não atuam, profissionalmente, como engenheiros e sim como professores, e que, portanto, não têm a vivência da atividade profissional e não têm a ciência ou a consciência das relações comerciais que vão definir o sucesso ou o fracasso dos profissionais que eles estão formando.

Como resultado disso, ao final de cinco anos, o estudante de engenharia se transforma em um engenheiro. E este engenheiro é completamente desprovido de auto-estima, de respeito próprio, de prazer profissional ou de consciência de mercado. Na metade do último semestre da faculdade, dois meses antes de receber o diploma e ser entregue aos leões do mercado, o estudante de engenharia ainda é tratado como mero es-tu-dan-te.
Em momento algum, durante a faculdade, o estudante de engenharia é tratado como engenheiro, em momento algum, durante esses cinco anos, a escola propicia a percepção da mudança de condição de estudante para a condição de profissional.

Estudantes de direito, medicina e odontologia, ao contrário, muito antes do fim da faculdade já têm uma noção razoavelmente clara das dificuldades do exercício profissional que eles irão enfrentar. Com isso vão desenvolvendo mecanismos psicológicos de defesa e saem da faculdade com maior grau de segurança. Entram no mercado profissional de cabeça erguida, com uma consciência de valor. E com todo o processo de construção da imagem profissional em andamento. Estudantes de engenharia não são estimulados a se vestir bem, nem a ter preocupações com técnicas de comunicação ou relacionamento social ou de exercício intelectual não linear. Com isso acabam não desenvolvendo habilidades gerenciais ou de relacionamento com o mercado.
Esta é uma das razões pelas quais as organizações de engenharia são, quase sempre, extremamente burocráticas e conservadoras.

Engenheiros (ao contrário de advogados, médicos e dentistas) não comandam seu ambiente de trabalho. Por mais que detenham o conhecimento e a técnica, os engenheiros são, via de regra, pouco influentes em relação ao produto final, seja uma construção, uma instalação, um empreendimento complexo ou um processo produtivo.

O mais lamentável é que os engenheiros, via de regra, só vão perceber os resultados da negligência com a imagem física, a comunicação não-verbal e o comportamento no mercado, depois de já terem acumulado muitas perdas desnecessárias (algumas das quais, infelizmente, irreversíveis).

E qual é a utilidade desse discurso? Qual a importância de se colocar este tema no papel? Porque tornar pública esta opinião, que, com certeza aborrecerá alguns segmentos? Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que a simples leitura deste ensaio leve um diretor de escola de engenharia, um professor, um estudante ou um profissional de engenharia a alterar o seu comportamento. O que se espera é que essas pessoas, a quem o texto é dedicado, tenham um momento de reflexão. E que a esse momento de reflexão se siga uma atitude. E que essa atitude tenha como objetivo dar um futuro melhor para a engenharia no Brasil.

A engenharia depende dos engenheiros. E os engenheiros começam a ser formados aos quinze ou dezesseis anos, ainda no ensino médio.
Eu ainda acho, como sempre achei, que o conhecimento científico que é transmitido aos estudantes durante a faculdade de engenharia é fundamental. E que o valor da engenharia está sustentado na capacidade intelectual e técnica dos seus profissionais.
No entanto, vejo como importantíssima uma nova visão, nesse processo de formação do engenheiro, que leve em consideração todo o relacionamento social dos estudantes entre si e com os seus professores. É importante que, aos estudantes, seja transmitida uma visão mais clara das relações comerciais que eles enfrentarão na vida profissional, seja na condição de profissionais autônomos, empresários ou empregados em alguma empresa.

Em qualquer um desses casos as relações sociais são elementos definitivos para o sucesso. É um “detalhe” que faz toda a diferença.
O estudante chega ao curso de Engenharia cheio de sonhos com a auto-estima elevada, transpirando confiança e auto-respeito. É muito triste que, dez ou quinze anos depois esse potencial tenha se transformado em um sujeito cabisbaixo, sem consciência de valor, destituído de auto-estima e respeito próprio. Abrindo mão da sua natural vocação de agente do desenvolvimento para ser mero instrumento de trabalho para terceiros.
Na Escola de Engenharia o engenheiro precisa ser “construído” para ser um vencedor. Precisa ser estimulado a acreditar no seu potencial. Confiar na sua inteligência. E, acima de tudo, precisa aprender a importância de manter a cabeça erguida.

ENG. ÊNIO PADILHA (Msc. Adm.)
www.eniopadilha.com.br - ep@eniopadilha.com.br

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Ciência e Pa(ciência) no exercício da docência

Artigo de Mirna Marques Bezerra Brayner enviado ao JC Email pela autora.


Neste 15 de outubro, depois de delicadas mensagens parabenizando-me pelo dia do professor, pus-me a pensar no exercício da docência. Daí, duas palavras vieram meio que automaticamente à minha cabeça: Ciência e Paciência.

Etimologicamente, a palavra "Paciência" (do latim patientia) não é resultado da junção entre as palavras "paz" e "ciência". Paciência deriva do latim patientia e significa "virtude que consiste em suportar os males ou os incômodos sem queixume e com resignação" (Dicionário de Língua Portuguesa, 5ª edição, pp. 66). Por outro lado, a palavra Ciência provém do latim scientia (conhecimento). Portanto, Ciência remete à academia, à objetividade, à produção/geração de conhecimento e/ou de tecnologias.

Diz-se que dentre as sete virtudes, a mais difícil de desenvolver é a Paciência. Ademais, a Paciência acaba por englobar outras virtudes como a fortaleza. Daí porque, embora a palavra Paciência remeta à espera, de fato denota ação, uma atitude dos fortes, uma vez que a Paciência deve estar intimamente ligada a um movimento incessante e sistemático na busca por respostas aos nossos questionamentos e inquietações, estas fomentadas e aquecidas pela nossa prática diária do (tentar) fazer ciência/ensino/aprendizagem.

Neste sentido, é que devemos ancorar nossas inquietações na concentração e na Paciência. Somente com obstinação e Paciência é que a Ciência consegue atender às angústias do animal humano, porquanto a resignação, o sofrer calado, tem muito mais cor e encanto se desse cenário for capaz de brotar uma resposta para um velho enigma, ou uma nova indicação terapêutica para um velho fármaco.

São Tomás de Aquino disse que a tolerância é o mesmo que a Paciência. E a Paciência, como dito anteriormente, é paixão, no sentido de coisa a suportar. Suportar as coisas desagradáveis como a voz rouca (com cisto nas cordas vocais) que nos impede de conduzir uma boa preleção; a refutação da nossa (hipó)tese; o resultado negativo que pode ser um bom resultado. Mas é preciso muita Paciência. Chega o monitor, o aluno de iniciação científica, o mestrando, o doutorando, inquietos todos (e impacientes!) com seus achados, com a sua falta de tempo de contemplar seus protocolos e seus cadernos, com o seu fazer diário de Ciência, porque a graduação e a pós-graduação lhes consomem...

E de novo, o que é característico da idade, falta-lhes a Paciência para apreciar o resultado, admirar com mansidão dado por dado, encantar-se na construção (e desconstrução) de um gráfico e desencantar-se com a mesma leveza, quando descobrem que o desvio padrão está enorme. Será preciso aumentar o n (mas e o princípio dos 3Rs, como fica??). Escolher a opção connecting line pode não levar a lugar nenhum, apenas para mais uma janela do Graph Pad Prism. Portanto, embora etimologicamente distintas, Ciência e Paciência são inseparáveis, sendo imperativo colocar um pouco de paixão (Paciência) nessa palavra (Ciência) tão objetivamente ligada à razão.

Mas só a prática diária, a repetição, a frustração também, muita leitura, 'nulla dies sine línea', é que podem nos conduzir às searas da produção da Ciência e tecnologia, à formação de pessoal (e de pessoas também) e à satisfação tanto profissional como emocional, no nosso convívio diário, entre paredes em quase ruínas. E por falar em ruínas, como não visualizar um caleidoscópio - do grego: kalos=belo; eidos = imagem; e scopéo = vejo = vejo belas imagens). O caleidoscópio é um objeto mágico construído a partir de fragmentos, de pedacinhos (vidro colorido, espelhos), que uma vez integrados permite a construção das mais inusitadas imagens, dependendo, claro, da habilidade (e muito da sensibilidade) de seu usuário. Daí que na nossa prática diária construímos belas imagens, belos dados, embora não na velocidade que desejaríamos, tendo muita Paciência de organizar idéias, de juntar (ou catar) letrinhas. E a percepção de cada um faz toda a diferença.

Todavia, além de muita Paciência, no caminho do fazer diário da Ciência, exercitamos outras virtudes que nos mantém unidos muito além de um resumo em um congresso, um projeto, um paper, uma patente, um registro. Buscamos e trabalhamos na nossa convivência a generosidade, a diligência, a humildade, para não citar as outras virtudes, na perspectiva de que não nos tornemos embrutecidos e obtusos.

Mas o dia do professor só existe porque existe o aluno. "É no ensino que se aprende a pensar. E é da capacidade de pensar que surgem os pesquisadores. Se a pesquisa é um fruto, o ensino são as sementes que foram plantadas. Sem sementes não há árvores, sem árvores não há frutos" - Rubem Alves. Aqui, utilizando-se do modelo proposto por Paulo Freire, repudiamos o modelo tradicional da prática pedagógica de "Educação Bancária", uma vez que essa visa a mera transmissão passiva de conteúdos do professor, assumido como aquele que supostamente tudo sabe, para o aluno, assumido como aquele que nada sabe. "Era como se o professor fosse preenchendo com seu saber a cabeça vazia de seus alunos; depositava conteúdos, como alguém deposita dinheiro num banco. O professor seria um mero narrador, nessa concepção de educação" (FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 2ª edição, 1975)

E por fim, mas não menos importante, finalizo esse breve rascunho com um texto de  Paulo Freire: "A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, essa pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação". (FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 2ª edição, 1975, pág. 44.).

Mirna Marques Bezerra Brayner é professora do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal do Ceará - Campus de Sobral.