quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para inglês não ver

Com raríssimos cursos em inglês, Brasil deixa de receber alunos e docentes estrangeiros

A internacionalização do ensino superior brasileiro tem ganhado força nos últimos anos. Mas a língua portuguesa ainda é uma barreira na ida e vinda de estudantes e professores estrangeiros.

Isso porque a maioria das aulas e dos exames na pós-graduação por aqui é ministrada em português. O cenário é bem diferente de universidades de elite de países como Alemanha, Suécia e Finlândia, que não falam inglês como língua "mãe", mas têm aulas nesse idioma.

"Não encontrei resistências por não falar finlandês", conta a engenheira Paula Delgado, 30. Ela fez parte do seu doutorado no Centro de Pesquisa Técnica VTT em Espoo, na Finlândia, em 2006.

"Todos falavam inglês, mas ficavam contentes quando eu tentava aprender algo em finlandês", brinca.

Assim como ela, Viviane Alecrim, 29, que fez mestrado na Universidade de Ciências Aplicadas de Munique, também chegou à Alemanha sem falar a língua do país.

Apesar de a maioria dos professores serem alemães, conta, as aulas eram em inglês -o que permitiu que ela tivesse colegas de países como China, Tailândia e Irã.

No Brasil, o ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) já afirmou que a internacionalização é necessária para troca de experiências entre países e pode fortalecer a ciência nacional. "Defendo a ideia de atrairmos pesquisadores de excelência no exterior", disse à Folha.

Mas, por enquanto, as aulas em inglês estão por conta dos professores estrangeiros. Os brasileiros, parece, não cogitam dar aula em inglês.

"Em virtude do princípio de igualdade nas condições de acesso e permanência na escola, as aulas devem ser dadas em português. Ninguém é obrigado a falar outra língua que não a oficial", explica Nina Ranieri, advogada e professora da USP especialista em direito à educação.

"É uma postura provinciana, mas que tem fundamento. A oferta em inglês privilegiaria o acesso dos mais favorecidos", completa Ranieri.

Apesar da resistência nos corredores acadêmicos, a geneticista da USP Mayana Zatz prega -e pratica- a internacionalização e o uso corrente de inglês na universidade.

"Meus alunos escrevem artigos e a tese em inglês. Estamos tentando que os trabalhos também sejam apresentados em língua inglesa", conta a geneticista.

O biólogo alemão Mathias Weller, 44, hoje professor da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba), concorda com a prática. Ele estava acostumado a falar inglês nos laboratórios da Alemanha, mas, no Brasil, teve de aprender português.

"Isso é um limitador. Há bons profissionais que gostariam de vir ao Brasil, mas não falam português", analisa.

Aula em inglês, no entanto, é só um dos passos da internacionalização. Para a engenheira de pesca Juliana Lima, 35, que fez doutorado na Alemanha, uma universidade bilíngue não está necessariamente preparada para receber estrangeiros. "Acolhimento também conta."

Universidades de SP convidam docentes de fora

As três universidades estaduais paulistas se esforçam hoje para aumentar a internacionalização e a quantidade de alunos estrangeiros.

Apenas 2% dos estudantes da graduação e da pós da USP, por exemplo, são de fora do país. Para se ter uma ideia do que esse número significa, universidades de ponta como as norte-americanas Harvard e Stanford e a britânica Cambridge têm cerca de 20% de estudantes estrangeiros (de graduação e pós).

A USP só tem um programa de pós-graduação ministrado totalmente em inglês. O curso, de biologia celular e vegetal, acontece no campus de Piracicaba (160 km de SP).

É uma parceria com a Universidade do Estado de Nova Jersey e a Universidade do Estado de Ohio.

A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) recrutou professores de fora para atuar como visitantes. Recebeu mais de 200 currículos de moradores de países como França, Canadá e Cuba. Os candidatos não precisam falar português.

Na Unesp (Universidade Estadual Paulista), a vinda de um professor convidado da Universidade de Louisville (EUA) fez com que uma disciplina da pós-graduação em letras fosse dada em inglês no ano passado.

As aulas em língua estrangeira reuniram alunos brasileiros e norte-americanos no campus de São José de Rio Preto (438 km de SP).

"Ninguém reclamou de as aulas serem em inglês", conta a aluna de mestrado Márcia Corrêa Mariano.
(Sabine Righetti)
(Folha de SP, 7/2)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tribuna do Norte | “Einstein fora do CNPq”

Tribuna do Norte | “Einstein fora do CNPq”

Alcyr Veras -  economista e professor universitário 

Em se tratando de um dos maiores cientistas do mundo, de todos os tempos, claro está que o título acima é mera força de expressão. Da mesma forma que o escritor, ensaísta, historiador e folclorista de renome mundial, Luís da Câmara Cascudo, não poderia, hoje, ministrar aulas em Universidades, pelo simples fato de não possuir cursos de mestrado e doutorado. Ou ainda, pelas mesmas razões, o grande arquiteto Oscar Niemayer, autor de célebres projetos que são verdadeiras obras de arte em várias partes do mundo, também não poderia ser professor universitário.

O título deste artigo foi inspirado num momento de humor-irônico durante recente entrevista que o cientista brasileiro, de elevado prestígio internacional, Miguel Nicolélis, concedeu ao Jornal O Estado de São Paulo, sobre a situação em que se encontra atualmente a pesquisa científica no Brasil. Nicolélis é pioneiro nos estudos referentes a interface cérebro-máquina e suas descobertas constam das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada no ano de 2001 pelo Instituto Americano de Tecnologia de Massachusetts e foi o primeiro brasileiro a merecer capa na Revista SCIENCE. Recentemente, recebeu nomeação como membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano.

Muitas pessoas se surpreenderam, inclusive a própria comunidade cientifica brasileira, quando Miguel Nicolélis resolveu instalar o Instituto Internacional de Neurociências na grande Natal, no município de Macaíba. Como se sabe, os Órgãos Públicos, Empresas e Entidades que atuam na área de ciência e tecnologia no Brasil, estão situados no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo de sua proposta é democratizar a pesquisa e descentraliza-la regionalmente, ou seja acabar com o mito de achar que somente o Centro-sul do país é capaz de desenvolver atividades científicas consistentes. Não há mais lugar para regionalismos preconceituosos. Segundo ele, se por um lado é ótimo São Paulo ser responsável por 70% da produção cientifica do país, por outro é  muito ruim para o Brasil, que precisa democratizar o acesso à ciência. 

Miguel Nicolélis considera que a atividade cientifica brasileira é extremamente elitizada. Sobre isso, faz o seguinte questionamento: “não temos penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade. Até bem pouco tempo, a ciência era uma atividade exclusiva da aristocracia brasileira. Há 30 ou 40 anos, somente a classe alta tinha acesso à universidade. Hoje, nós precisamos de cientista que joga futebol na praia ou que exerça qualquer outra atividade profissional, não interessa sua origem. As crianças precisam ter acesso a educação científica. Estamos trabalhando com 21 crianças da periferia da cidade de Natal (RN). Quatro delas participam de um projeto piloto em que aprenderam a usar ressonância nuclear magnética para medir o volume de óleo nas sementes do pinhão-manso no semi-árido nordestino”.

O que Nicolélis quer dizer é que qualquer pessoa pode ser um cientista, não importa a classe social ou econômica e que pertença. O cientista deve ser uma pessoa comum na sociedade. O mais importante é que tenha talento. Ele diz ainda que, no Brasil, as Instituições de Pesquisa são amarradas a normas excessivamente burocráticas e só admitem cientistas através de concurso público. E as exigências curriculares são recheadas de pré-requisitos tão absurdos e inflexíveis que o maior gênio da física, Albert Einstein, provavelmente hoje não seria admitido como pesquisador no CNPq (órgão federal do governo brasileiro que responde oficialmente pela pesquisa científica e tecnológica)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Engenharia à distância, editorial da "Folha de SP"

"Os cursos à distância não são por definição um mal, desde que sejam submetidos a critérios objetivos de avaliação"

Leia o editorial:

O deficit de engenheiros de que padece o Brasil já constitui gargalo significativo ao desenvolvimento do país. Assim, a notícia de que quintuplicou para algo em torno de 8.600 o número de estudantes da área em cursos à distância, de 2007 a 2009, precisa ser encarada com boa vontade, sem ingenuidade nem preconceito. Mais importante que o modo como são treinados os engenheiros é a qualidade final de sua formação.

Profissionais da área se dividem sobre a questão do ensino à distância. A maior parte do estudo se dá por meio de material impresso, aulas pela internet e fóruns virtuais. Críticos alegam serem insuficientes as esporádicas aulas práticas. Defensores afirmam que o custo para o aluno é menor e que as avaliações são rigorosas.

O fato é que cursos tradicionais já oferecem formação deficiente. Professores da área avaliam que apenas um em quatro alunos sai da faculdade com formação adequada, o que agrava a falta estrutural de profissionais. O problema vem desde o ensino médio, com baixa qualidade das aulas em disciplinas como física e química, e se acentua na faculdade.

O setor estima em R$ 26,5 bilhões por ano os prejuízos com falhas de projetos em obras públicas. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e a boa perspectiva da economia para os próximos anos devem contribuir para piorar um quadro já precário.

Não bastasse a qualidade inferior, a quantidade também está muito aquém do necessário.

O Brasil ainda forma apenas cerca de 55 mil engenheiros por ano, apesar de um crescimento de 67% de 2004 a 2009. Como muitos buscam carreiras alternativas em setores mais lucrativos, como o financeiro, são 32 mil os que passam a atuar na profissão, segundo entidades do setor. A Coreia do Sul, com um quarto da população brasileira, forma 80 mil.

O mercado nacional tem necessidade de 60 mil a 80 mil novos engenheiros anualmente. A lacuna é preenchida em parte por profissionais estrangeiros, que vêm ao Brasil atraídos por um cenário econômico melhor que nos países do mundo desenvolvido. Mesmo assim, o número é insuficiente.

Os cursos à distância não são por definição um mal, desde que sejam submetidos a critérios objetivos de avaliação. Cabe ao Ministério da Educação, em parceria com as entidades de classe do setor, determinar um mínimo de aulas presenciais e práticas para formar os engenheiros de que o país necessita -e fiscalizar à risca o cumprimento da norma.
(Folha de SP, 3/2)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Muito Boas Intensões

 Aliás, ótimas intensões


 São Paulo, domingo, 23 de janeiro de 2011 Folha de São Paulo
País rico oferece mão de obra ao Brasil

Governos e entidades de classe do exterior contatam empresários no país para tentar enviar trabalhadores qualificados

Desenvolvimento faz intermediação de alguns encontros; vinda de profissionais esbarra em custo e burocracia

SHEILA D'AMORIM 
DE BRASÍLIA

Com a falta de mão de obra qualificada no Brasil e o excesso de profissionais sem emprego nos países ricos em razão da crise, governos e entidades de classe do exterior têm contatado empresários e associações de engenheiros e arquitetos nacionais para oferecer trabalhadores.
O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) faz a intermediação de alguns desses encontros, como aconteceu em novembro, com representantes dos Estados Unidos. Outros estão sendo feitos diretamente.
Reunidos na Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, a convite do MDIC, empresários assistiram a uma exposição por videoconferência sobre o perfil e a qualificação das empresas americanas na área de arquitetura e engenharia.
"Eles mostraram que têm ociosidade e capacidade para trazer profissionais e empresas para trabalhar aqui", disse José Carlos Martins, vice-presidente da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), que participou do encontro.

CRISE
"Em razão da crise lá fora, há interesse brutal desses profissionais em vir para cá", afirmou Marcos Túlio de Melo, presidente do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), também presente ao encontro.
Dos brasileiros os estrangeiros ouviram detalhamento dos investimentos previstos nas áreas de energia, transporte, habitação e saneamento, além do passo a passo de um longo e caro processo para validar diplomas e obter autorização para trabalhar no país.
O tempo pode chegar a oitos meses, e o custo, passar de R$ 15 mil.
A fila de espera para entrada no país inclui engenheiros e arquitetos americanos, espanhóis, italianos, portugueses e ingleses, além de chilenos e argentinos.

CONTRAPARTIDAS
Para o Brasil, encurtar esse processo depende de contrapartidas. Representantes dos trabalhadores querem aproveitar o interesse e abrir oportunidades para brasileiros nesses países ricos.
"Eles tiveram seu momento de expansão e não flexibilizaram [regras] para a gente. Pode ser feito um acordo bilateral de longo prazo. Hoje, a gente não consegue entrar no mercado europeu", disse Melo, que já se reuniu com representantes dos EUA, da Espanha, do Chile e de Portugal e aguarda um encontro formal com o Reino Unido.
"Queremos contrapartidas e aguardamos manifestação deles", disse. Segundo ele, o número de pedidos de registro de estrangeiros triplicou em 2010.
Procurado por representantes da Itália, da Espanha e da Argentina, o presidente do Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) do Paraná, Álvaro Cabrini, disse que todos ficaram de formalizar os pedidos, "mas até agora não chegou nada".
"Tenho recebido pedidos para validar diplomas de engenheiros, mas do Mercosul, principalmente, da Argentina."
Em novembro do ano passado, ele se reuniu com o cônsul argentino para negociar um acordo bilateral que simplifique o processo de entrada no Brasil.
"O Confea exige tradução do diploma, o que tem um custo de R$ 8.000 a R$ 15 mil. Podemos abrir mão disso, já que, no processo, uma universidade já validou o diploma. Isso facilita o trânsito."
Mas diz que "há resistências da Argentina em receber profissionais brasileiros".

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ainda sobre a velha substituição dos homens pelas máquinas!

O robô-professor vem aí

Experiência bem sucedida acontece na Coréia do Sul

Filme de ficção científica ou realidade cada vez mais próxima do dia a dia do mundo do século XXI? Deixamos para vocês, leitores, opinarem. O fato é que em Daegu, Coréia do Sul, uma escola resolveu inovar. Colocou 30 robôs-professores em 20 escolas de Ensino Fundamental para ver a reação das crianças e verificar se o nível de aprendizagem melhoraria. A experiência, na avaliação do Governo do país, foi aprovada. As máquinas, criadas pelo Instituto de Ciência e Tecnologia do país, tem a intenção de ensinar a língua inglesa para alunos sul-coreanos que não têm contato com o idioma. A meta é implementar a ação.
O robô atende pelo nome de Engkey e parece com um ovo, inclusive nas cores. Sua locomoção é realizada através de quatro rodas. Possui braços articulados que auxiliam na interação com os alunos. Ele é controlado ao vivo por professores de verdade, que se encontram nas Filipinas. Tem pouco mais de 1 metro de altura e possuem uma tela que capta e mostra o rosto do professor que está, à distância, dando a aula. Os “Engkey” ainda conseguem ler os livros físicos dos alunos e dançar, movimentando a cabeça e os braços
Segundo Sagong Seong-Dae, cientista do Instituto, a questão financeira contou para a substituição do humano pela máquina. “Com boa formação e experiência, os professores filipinos são uma mão-de-obra mais barata do que os daqui”, contou ao site britânico Daily Mail.
Kim Mi-Young, uma oficial do departamento de educação do país, afirmou também ao site que a experiência foi bem-vinda. “As crianças parecem amar os robôs porque eles são bonitinhos. Mas alguns adultos também mostraram um interesse especial afirmando que se sentem menos nervosos de conversarem com máquinas do que com pessoas de verdade”, contou.
Mi-Young fez questão de destacar, no entanto, que os robôs não vão substituir completamente a atuação dos professores humanos, apesar do investimento governamental de cerca de US$ 1,5 milhão, algo em torno de R$ 2,5 milhões. Cada robô tem o preço de aproximadamente R$ 12 mil.