sábado, 6 de março de 2010

Eleições na universidade


por Jacques Marcovitch

A questão universitária no Brasil impõe um foco maior em medidas que tragam rápidos e efetivos benefícios sociais. Entre estes, o avanço contínuo do desempenho em pesquisa científica e o incremento da oferta de vagas gratuitas ou financiadas, avanço que promove o bem-estar e incremento que favorece a integração. Nunca é demais repetir que o Brasil tem, na faixa etária correspondente, apenas 9% de sua juventude no terceiro grau, contra 40% na Argentina e 80% no Canadá, para citar apenas dois contrapontos. Enquanto isso, no espaço da universidade pública, onde essa questão social deveria prevalecer, alguns setores ainda levantam, como prioritário, o tema da eleição direta para reitor.
Formulada esta objeção preliminar à reincidência de pauta que me parece alheia ao interesse coletivo, espero contribuir, nestas linhas, para examiná-la de forma objetiva. Lembrarei dois fatos ocorridos em minha gestão reitoral. Faço o retrospecto por entender que um dirigente universitário serve à academia esforçando-se ao máximo no exercício do seu cargo e, depois, transmitindo aos colegas, quando necessário, a memória da experiência vivida.
Cabe reconhecer, antes de expor os fatos, que nem todos os adeptos do voto direto para reitor subestimam as questões principais da universidade. Agem, muitos deles, na suposição de que o seu critério de escolha é o mais democrático e o mais legítimo. Tenho a expectativa de que o meu relato ajude a reverter este equívoco e demonstre que o voto direto, ideal na representação política do Estado, é de todo inconveniente na escolha dos dirigentes de uma universidade. Não alonguemos, porém, os argumentos nesta linha, que dão sempre margem a excessos retóricos de um lado ou de outro. Voltemo-nos para a realidade concreta, que nos traz ensinamentos de maior valia.
O primeiro ponto a relatar diz respeito a uma pesquisa que desenvolvemos na Reitoria da USP junto às grandes instituições acadêmicas internacionais. Era nosso propósito saber qual o processo que adotavam na escolha de seus reitores e como encaravam a hipótese de uma eleição direta para esse fim. As universidades foram escolhidas com base em critérios de qualidade de seu desempenho e presença em redes de universidades mundialmente reconhecidas, como a Association of American Universities e a League of World Universities, da qual a USP é participante.
Foram ouvidas, na ocasiã0, 27 grandes instituições em todo o mundo: University of Oxford e University College London (Inglaterra); Université de Lausanne (Suíça); Université Lyon 2 (França); Leiden University (Holanda); Universität München e Universität Berlin (Alemanha); Universidad de Salamanca (Espanha); Stockholm University (Suécia); University of Sydney (Austrália), McGill University (Canadá); Hebrew University (Israel); University of Tokyo (Japão); Universidade de Coimbra, Universidade Nova de Lisboa, Universidade do Porto (Portugal); Universidad de Los Andes (Colômbia); University of Malaya (Malásia); Johns Hopkins University, Vanderbilt University, New York University, Emory University, Brandeis University, Association of American Universities, Duke University, University of Pittsburgh e Michigan State University (EUA).
Presume-se, e não seria lícito julgar de outro modo, que sendo estas universidades muito bem-sucedidas em seu desempenho, a forma de escolha dos respectivos dirigentes é a mais adequada. O questionário enviado compunha-se de quatro itens: procedimento atual da escolha do reitor, Presidente ou Vice-Chancellor; composição das assembléias que referendam a indicação final; duração do mandato; e, finalmente, o pedido de uma opinião sobre a hipótese de ser o reitor eleito em votação direta de todos os professores, funcionários e alunos.
Dito isto, passemos às opiniões colhidas na pesquisa. A principal informação foi a de que nenhuma das instituições consultadas adota o sistema de eleição direta para reitor. A maioria escolhe seus dirigentes em processo assemelhado ao adotado pela Universidade de São Paulo. Algumas, notadamente nos Estados Unidos, chegam a indicar o reitor após uma busca entre executivos mais capazes, incluindo-se apresentação de currículo e outros meios praticados por empresas e Fundações no recrutamento dos seus dirigentes.
Julgo adequado reproduzir aqui, sem comentários meus, os juízos emitidos pelos reitores das universidades pesquisadas quando chamadas a opinar sobre o item da escolha direta. O reitor da Universidade de Oxford, Inglaterra, dr. Colin Lucas, perguntado se admitia uma escolha feita por alunos, professores e funcionários, pela via do sufrágio universal, foi categórico: “Absolutamente não. Isto produziria resultados baseados em considerações altamente políticas e campanhas com promessas sendo feitas ou procedimentos não adequados ao tipo de liderança que uma universidade necessita. O corolário seria o desenvolvimento de um tipo de governo ministerial, pois outros líderes teriam que ser trazidos para satisfazer outros interesses. Nada disso é positivo para a boa liderança e o bom julgamento”.
Outra importante universidade inglesa, a College London, representada pelo seu Presidente e Provost, Chris Llewellyn Smith, desaconselha o sufrágio direto. Diz o dirigente: “Não sou favorável a um sistema de voto direto de docentes, funcionários e alunos. Isso apesar do fato de que em universidades que não têm Conselhos com a maioria dos membros vindos de fora possa haver argumentos em favor de tal procedimento.
No caso da UCL, tenho que prestar contas ao Conselho, que poderá demitir-me se não estiver trabalhando adequadamente. As desvantagens de tais eleições diretas residem no fato de que, em minha opinião, a maioria dos docentes, funcionários e estudantes realmente não têm muita idéia de como uma universidade deve ser administrada. E tenho observado que em alguns países onde há esse tipo de eleição para reitor surge a tendência de candidatos lançarem plataformas com base em propostas populistas, que poderão não trazer os melhores resultados para as universidades”.
O Presidente da Universidade de Lyon 2, França, Gilbert Puech, comenta: “Uma eleição direta tem seus atrativos, mas não seria fácil ponderar o voto entre os diferentes constituintes de cada comunidade: membros da faculdade, pesquisadores, pessoal administrativo e técnico”.
O dr. Douwe D. Breimer, da Universidade de Leiden, Holanda, resume o seu ponto de vista contrário: “Não me parece que uma eleição geral seja uma boa idéia. Um reitor deve ser escolhido com base em sua forte competência. O risco de eleições gerais é que a política venha a ser o mais importante”.
Na Universidade de Munique há um movimento no sentido de restringir mais ainda o processo de escolha. Informa seu reitor, Professor Andréas Heldrich: “Quanto ao processo de eleição do reitor e ao período do seu mandato parece que não há insatisfação com o atual estado de coisas na Universidade de Munique. Em estudo muito recente, uma firma de consultoria sugeriu que se estabelecesse um colégio eleitoral menor, com membros vindos de fora da Universidade, ao invés do Senado Estendido que temos atualmente. Nossos consultores apontaram para o fato de que esta mudança faria com que o reitor fosse menos dependente das pessoas que é obrigado a supervisionar. Portanto, as discussões em nossa Universidade estão caminhando para uma mudança na estrutura administrativa, ao invés de uma abertura maior na participação interna”.
O documento que recebemos da Universidade Livre de Berlim também se opõe a uma eleição direta: “Não consideramos este sistema muito apropriado, pois o grande número de estudantes teria o voto majoritário. Este modelo seria adequado se o Presidente tivesse somente uma função representativa. Tendo em vista que ele tem poderes de decisão, sua aceitação por todos os grupos, especialmente pelos professores, é essencial”.
Da Universidade de Salamanca, encaminhada pelo dr. Ignácio Berdugo Gómez de la Torre, veio a informação de que a maioria dos reitores espanhóis é contrária ao processo eleitoral direto. Declara este dirigente: “Sou claramente contrário ao voto direto. Entendo que, ao ser ponderado, tenha este uma grande carga demagógica e traga mais inconvenientes do que a legitimação pretendida”.
Da Suécia, onde os reitores são escolhidos por um Conselho Eleitoral, veio esta resposta curta e eloqüente, subscrita pelo Presidente Gustaf Lindencrona, da Universidade de Estocolmo: “Acho que o sistema de voto indireto, conforme existe em nossa Universidade, é melhor”.
Ainda mais conciso foi o Professor Gavin Brown, reitor da Universidade de Sydney, Austrália: “O modelo para eleger um reitor diretamente é inapropriado”. Eis a resposta que nos foi enviada pelo dr. Bernard J. Shapiro, da McGill University, do Canadá: “Eu não acredito que em nosso meio o voto direto pelos estudantes e/ou funcionários da Universidade seria muito bom. As contendas envolvendo publicidade politizam desnecessariamente o ambiente e raramente produzem a liderança necessária para uma instituição acadêmica. Além do mais existem muitos ‘stakeholders’ da Universidade que não são representados por aqueles que freqüentam a Universidade ou que nela trabalham”.
A Universidade Hebraica de Jerusalém, Israel, não opinou sobre a eleição direta, preferindo informar que a eleição do seu presidente se faz por um Conselho de Curadores. O reitor é escolhido pelo Senado e através de um Comitê de Busca, no qual o Presidente tem poder de veto.
Na Universidade de Tokyo a escolha do Presidente da Universidade é feita em duas etapas. Na primeira, os delegados/representantes de cada uma das 14 faculdades e 12 institutos de pesquisa são escolhidos pelos professores, professores associados e professores assistentes da Universidade. Esses delegados/representantes se reúnem em assembléia e escolhem, através de voto secreto, cinco candidatos. Na segunda etapa, os professores, professores associados e professores assistentes votam em um dos cinco candidatos selecionados. O candidato com maior número de votos será o Presidente daUniversidade de Tokyo. Neste estágio do processo é possível votar em outros candidatos além dos cinco apresentados pelos eleitores. Não é necessário ser docente da Universidade para concorrer à vaga para Presidente. A instituição considera que, deste modo, as eleições “têm sido diretas, pois as pessoas com responsabilidade direta pelo ensino e pesquisa (docentes), são as que elegem o Presidente”.
A Reitoria da Universidade de Coimbra, esclarecendo que o seu executivo principal é indicado entre os professores catedráticos de nomeação definitiva e eleito pela Assembléia da Universidade, sequer comentou a possibilidade de eleição direta.
O Professor Luís Sousa Lobo, Reitor da Universidade Nova de Lisboa, enviou-nos a seguinte resposta: “O processo de eleição direta, com conversão da proporcionalidade dos votos obtidos em cada corpo eleitoral, foi praticado com sucesso na Universidade do Minho entre 1982 e 1989, mas a Lei atual não o permite. Torna a eleição mais visível na comunidade acadêmica, embora conduza a uma campanha eleitoral mais consumidora de tempo para os diversos intervenientes”.
Também na Universidade do Porto uma Assembléia da instituição escolhe o Reitor entre catedráticos de nomeação definitiva. O Professor J. Novais Barbosa, seu atual reitor, opina sobre o voto direto: “Seria um princípio aceitável, se não tivesse o inconveniente de incluir um apreciável número de pessoas certamente muito interessadas na sua área de incidência, mas pouco interessadas na atividade global da instituição”.
Enfatizando que a eleição do reitor por um Conselho de Diretores vem funcionando muito bem há mais de 30 anos, o atual Reitor da Universidade Los Andes, Colômbia, Professor Carlos Ângulo-Galvis, opina sucintamente: “Não favorecemos o voto direto. Consultamos os membros da comunidade e levamos em consideração as suas opiniões”.
O Reitor da Universidade da Malásia, Dr. Anuar Zaini Md Zain, informou apenas que o Vice-Chancellor é indicado pelo Ministro da Educação. Sugeriu como alternativa um Comitê para procurar o melhor candidato.
As universidades norte-americanas condenam por unanimidade a votação direta. O Presidente da Associação que representa aquelas com maior engajamento em pesquisa, Dr. Nils Anselmo, também respondeu à pesquisa, e nos seguintes termos: “Eu não acredito que a eleição através de voto direto dos docentes, funcionários e alunos seja um modelo viável para as universidades norte-americanas, tendo em vista suas estruturas de administração.
Todas elas têm, entretanto, Senados Universitários, com grupos separados para docentes e estudantes, para determinadas finalidades, que têm um peso considerável sobre questões acadêmicas. Este fato é referido como ‘shared governance’ (administração compartilhada). Mas a função dos docentes e dos estudantes é somente opinativa no caso de eleição de um Presidente/Chancellor”.
Seguem-se, em bloco, as opiniões encaminhadas à Reitoria da USP por oito destacadas universidades dos Estados Unidos:
Universidade Johns Hopkins – (Dr. William R. Brody) – “Seria contrário aos Estatutos da Universidade eleger o Presidente por voto direto. Seria também um erro que mudaria completamente o caráter desta instituição, na qual o Presidente responde ao Conselho, entidade autônoma, independente. Esta independência é tão importante que os Estatutos proíbem expressamente qualquer aluno, docente ou funcionário de servir como Conselheiro. Como nenhum Conselheiro é afetado diretamente pelas políticas e ações definidas pelos Curadores, eles têm maior objetividade sobre como administrar a Universidade, o que não seria possível se fossem stakeholders. “(…) Se a estrutura de governo permitisse a escolha direta, a Presidência ficaria politizada ao ponto em que o próprio Presidente não poderia levar avante sua missão com eficácia”.
Universidade Vanderbilt – (Dr. Mark J. Justad) – “Se fosse uma situação como a de Vanderbilt, eu seria cético quanto ao estabelecimento de um processo direto de eleição”.
Universidade de Nova York – (Dr. L. Jay Oliva) – “Meu pensamento quanto à eleição direta de um reitor (por todas as pessoas da comunidade – alunos, docentes e funcionários) é que não é uma boa idéia. O voto direto, nesse caso, resultaria num concurso de popularidade ao invés de se buscar o candidato certo, com as credenciais apropriadas”.
Universidade Emory – (Dr. Gary S. Hauk) – “Muitas vezes os passos necessários para levar a universidade a um nível mais alto são impopulares ou apenas parcialmente compreendidos por algumas comunidades. A eleição popular de um dirigente limitaria, portanto, a capacidade dos Curadores na busca de uma pessoa com as qualidades necessárias para liderar”.
Universidade Brandeis – (Dr. John R. Hose) – “A eleição direta para Presidente da instituição abriria a possibilidade de campanhas de candidatos e uma seleção altamente politizada que encorajaria a divisão e o surgimento de ‘ganhadores’ e ‘perdedores’ entre as várias comunidades. É de vital importância que as vozes dos docentes e alunos sejam  ouvidas na seleção de um Presidente, porém nenhuma dessas comunidades está na mesma posição do Conselho de Trustees para tomar uma decisão imparcial e baseada naquilo que é melhor para a Universidade”.
Universidade Duke – (Dr. Nannerl O. Keohane) – “Não acredito que a eleição de um Presidente pelo voto direto dos docentes, funcionários e estudantes favorecesse os melhores interesses de uma instituição. Este processo poderia dividir o campus e politizar a seleção”.
Universidade de Pittsburgh – (Dr. Mark A. Nordenberg) – “Não tenho experiência para medir esse enfoque e preferiria o processo desta Universidade, que eu sei que funciona”.
Universidade do Estado de Michigan – (Dr. Peter McPherson) – “A função do Presidente muitas vezes envolve a busca de fundos externos e relações com Assembléias Legislativas, líderes da comunidade e público em geral. Por isso, um voto direto pelos docentes, funcionários e estudantes, não seria apropriado porque constituintes externos importantes estariam fora do processo. O nosso atual sistema é melhor, pois a busca envolve membros eleitos pelo público e também constituintes internos”.
As opiniões aqui registradas evidenciam um consenso a ser atentamente examinado. Se queremos uma academia moderna e sintonizada com as boas práticas internacionais, devemos seguir o exemplo das melhores universidades. Não se trata de copiar mecanicamente os procedimentos adotados em outros países, mas acompanhá-los no essencial, que é o respeito aos interesses acadêmicos. Caberia sublinhar ainda que as instituições ouvidas pela USP situam-se, na quase totalidade, em países de sólida tradição democrática, onde o direito de opinião é fundamento pétreo em suas Constituições. Nota-se, porém, que estas academias percebem sabiamente as sutis e importantes diferenças entre a organização do Estado e a organização universitária.
À guisa de ilustração, serão descritos os processos de escolha de dirigentes em algumas das instituições pesquisadas. Todas elas integram a lista de universidades melhor avaliadas no “Academic Ranking of World Universities – 2004″, elaborado sob a coordenação do professor Nian Cai Liu, do Instituto de Ensino Superior da Universidade de Xangai – China, com o objetivo de orientar os estudos de chineses no exterior.
Associação de Universidades Americanas – Esta associação reúne as cem maiores universidades norte-americanas, em especial aquelas que priorizam as atividades de pesquisa e pós-graduação. Nessas instituições, públicas ou privadas, o presidente ou chancellor é eleito pelo Conselho da universidade. Os membros dos Conselhos, por sua vez, são eleitos ou designados de formas variadas. Nas universidades públicas, alguns dos conselheiros são eleitos quando das eleições gerais dos Estados e outros são indicados pelos governadores. Nas universidades privadas o próprio Conselho elege os seus membros e se auto-renova periodicamente. Na escolha de um presidente ou chancellor o Conselho geralmente indica um comitê de busca com representação do próprio Conselho, docentes, funcionários e estudantes e, às vezes, ex-alunos. Os mandatos variam de indicação anual até mandatos de cinco anos com a possibilidade de recondução.
Universidade Johns Hopkins – É dirigida por um Conselho de Curadores provenientes do setor privado, sendo que os próprios membros elegem os seus sucessores. O Presidente é escolhido por esse Conselho de Curadores e fica no cargo até quando o desejar. Quando um Presidente sinaliza que quer deixar o cargo, o Conselho de Curadores indica um comitê de busca para identificar o sucessor. Este Comitê, muitas vezes dirigido pelo Presidente do Conselho de Curadores, é integrado, em sua maior parte, pelos próprios Curadores, mas também inclui representantes de todos os setores da Universidade – docentes, estudantes, funcionários e ex-alunos. O processo para identificar um novo Presidente leva de 12 a 18 meses e envolve a consulta a pessoas da própria Universidade, de outras instituições, ou mesmo do exterior. Os indicados finalistas são entrevistados pelo comitê de busca e por membros da direção da Universidade. O comitê de busca recomenda um único candidato ao Conselho de Curadores que, então, decide se elegerá essa pessoa para o cargo.
Universidade de Nova York - A seleção é feita por um comitê de busca composto por pessoas conceituadas da Universidade (administração central, docentes, estudantes e funcionários). Não há mandato fixo para o Presidente. O Conselho de Trustees da Universidade é que decide quando um Presidente deve ser escolhido.
Universidade de Oxford – O Vice-Chancellor, dirigente executivo da universidade, é escolhido por um colégio eleitoral, integrado por quatorze membros, sendo cada um deles indicado por um setor diferente da Universidade. O colégio eleitoral é presidido pelo Chancellor (patrono da Universidade com poucas funções executivas, sendo a maioria delas de representação externa). O colégio analisa em sigilo possíveis nomes para a função e poderá fazer consultas reservadas. Não há candidaturas ao cargo e, caso seja percebida uma campanha em prol de um dos nomes, este será automaticamente desqualificado. O nome escolhido pelo colégio eleitoral é então proposto a todo o corpo de acadêmicos/professores. O nome é referendado, a menos que haja, dentro de um prazo determinado, uma contestação fundamentada. Nunca, na história da Universidade, um indicado foi chamado ao debate ou feita oposição ao nome proposto. O mandato é de cinco anos, podendo ser prorrogado por mais dois, não sendo permitida a recondução.
Universidade Colégio de Londres - O Presidente e Provost da UCL é indicado porum Conselho sob a recomendação de um Comitê de Seleção composto por membros do Conselho e do Conselho Acadêmico. O Conselho é integrado por cerca de trinta pessoas, a maioria não pertencente à Universidade, mas vinda da área empresarial e de representantes das profissões liberais. Atualmente integram também o Conselho dois professores representantes das escolas de segundo grau. Os membros internos incluem a representação de funcionários docentes e não-docentes e representantes dos estudantes. Já o Conselho Acadêmico é integrado por professores titulares e por membros eleitos de outras categorias docentes. O mandato tem duração mínima de cinco anos e máxima de dez anos.
Universidade de Estocolmo – A eleição do Reitor/Presidente acontece em três etapas. Na primeira, há uma decisão do Conselho Eleitoral, constituído por 60 membros, sendo 36 escolhidos pelos docentes, 12 pelos estudantes e 12 pelos sindicatos do comércio. Na segunda, há a decisão do Conselho Universitário, que geralmente escolhe o candidato que obteve a maioria dos votos no Conselho Eleitoral. Finalmente, o Reitor/Presidente é indicado pelo Governo. O mandato é de 6 anos, podendo haver reeleição para um período de mais 3 anos.
Universidade de Lyon 2 – O Presidente da Universidade é escolhido entre os docentes titulares e eleito por uma assembléia de aproximadamente cento e trinta membros integrantes do Conselho de Administração, do Conselho Científico e do Conselho para Assuntos Acadêmicos. O processo eleitoral inclui uma consulta a todos os membros da Universidade, mas a eleição é por delegação, pois é feita nos três conselhos. O mandato é de cinco anos e não se permite a reeleição.
Universidade de Los Andes - O reitor é eleito pelo Conselho de Diretores, composto por quarenta e cinco membros, tendo um mínimo de dois professores e dois estudantes. Um comitê de busca, constituído pelo Presidente e doze membros do Conselho de Diretores, entrevista membros do próprio Conselho, docentes e outros integrantes da comunidade da Universidade, prepara um relatório e apresenta suas conclusões ao Conselho. As conclusões incluem a recomendação de um a três candidatos para serem votados. O primeiro mandato é de quatro anos, que pode ser estendido por mais dois, indefinidamente.
Universidade Nova de Lisboa – A eleição é feita por um colégio eleitoral de cerca de duzentas e cinqüenta pessoas, designado Assembléia da Universidade, com representação das Faculdades, em que há 27% de estudantes e 10% de funcionários. Recentemente foram feitos ajustes no processo para assegurar a representação autônoma de estudantes de pós-graduação e introduzida uma regra de proporcionalidade mitigada, com três escalas de dimensão para a representação das Faculdades (1º escalão: até 1000 estudantes; 2º escalão de 1000 a 3000 estudantes; 3º escalão para Faculdades com mais de 3000 estudantes). Foram introduzidas, também, as alternativas de candidaturas ou deproposituras (por 5 a 10% de membros do colégio eleitoral). O mandato é de quatro anos admitindo-se apenas uma reeleição.
Toda a argumentação recolhida sobre a escolha do Reitor centra-se, como vimos, no princípio da competência. Esta será, em todos os casos, aferida por um grupo notoriamente qualificado e sem outro interesse que não seja de ordem acadêmica. O viés político é absolutamente desprezado. Exige-se do candidato um perfil em que se sobressaiam a capacidade administrativa e um pleno domínio de questões pertinentes às atividades fins da instituição. Está descartada qualquer hipótese de influência privilegiada no exercício de suas ações futuras.
O dirigente acadêmico, além de sólido conhecimento da área que lhe cabe gerir e uma compreensão abrangente da universidade, precisa ser um articulador. Mas a liderança, neste caso, não tem aquele sentido que ostenta quando relacionada com o embate sindical ou político. A condução partidária ou corporativa repousa basicamente na habilidade para arregimentar segmentos da sociedade e em atributos pessoais como oratória, carisma ou até mesmo alguma teatralidade no comportamento. A liderança de um dirigente universitário se mede pela capacidade na agregação de competências e formulação de um projeto para a academia. O desvio capital na tese do voto direto é o de exigir do Reitor ou dirigente de unidade o posicionamento de um agitador de massas. Ele não é isso, por mais que admitamos, no plano político, um protagonista com este perfil.
Não se veja, nesta observação, qualquer menosprezo à política e seus ritos, perfeitamente legítimos quando praticados em âmbito próprio. A política é a estrutura essencial do sistema representativo. Uma crítica irrefletida aos seus processos quase sempre oculta convicções totalitárias ou revela uma total incompreensão dos valores democráticos. Que fique bem claro: no caso em análise o erro está em partidarizar o contexto acadêmico e ignorar a sua verdadeira natureza.
As diferenças também ocorrem entre aqueles que vão escolher a liderança. Na universidade, ao contrário do que sucede no conjunto social, os liderados exercem um papel ativo. Eles não se limitam a seguir os passos de alguém, mas ajudar este alguém nas tarefas de governança e, mais do que isso, na concepção das políticas acadêmicas. Esta influência mútua é praticada nos colegiados, que por sua vez não devem guardar semelhança com os plenários políticos ou assembléias de classe, onde atuam “bancadas” e “facções” mais preocupadas com a reação de suas bases eleitorais.
Freqüentemente se ouve dizer que as congregações e conselhos superiores na universidade assumem posições “conservadoras”. Melhor seria caracterizá-las como prudentes, inclusive para identificar os líderes verdadeiramente inovadores e saber diferenciá-los dos que pretendem apenas trocar uma rotina por outra. Parece-nos que estas premissas estão implícitas nos depoimentos colhidos junto aos dirigentes das universidades internacionais ouvidos pela Reitoria da USP sobre as suas respectivas estruturas e processos de escolha.
Um Reitor não deve estar ligado a qualquer facção partidária, mesmo que ocasionalmente esta facção represente, no espectro político, um programa justo de governo. O compromisso da autoridade universitária restringe-se ao contexto exclusivo da qualidade acadêmica. Neste caso, a chegada ao posto de Reitor assemelha-se ao ingresso de um estudante na universidade.
O improvável cenário da eleição direta para Reitor teria uma porta escancarada para o aparelhamento da universidade pública. Por ela entrariam grupos ideológicos em busca de fortalecimento. Grupos de direita, como no tempo da ditadura militar ou grupos de vários matizes, como nos dias de hoje. Nocivos, todos, ao interesse universitário, porque visam em primeiro lugar a política e não as questões relevantes da academia.
Demo-nos por felizes que haja no Brasil plena liberdade e que se possam expressar as mais variadas correntes partidárias. Mas seria inadequado ampliar o campo de confronto destas forças para dentro da universidade visando a ocupação de espaços e permitindo que militantes de qualquer origem viessem a exercer cargos destinados a gestores de formação específica. A livre circulação de idéias é a razão de ser de uma universidade crítica e plural, como defendemos. Mas não se pode instrumentalizar este princípio com objetivos de poder interno, sob pena de trair o seu verdadeiro sentido.
Ficou demonstrado que um “concurso de popularidade”, para usar a expressão do reitor Jay Oliva, da Universidade de Nova York, é a pior forma de eleger um dirigente universitário. O melhor é fazer todas as escolhas pelo critério da competência e do vínculo permanente com a missão acadêmica. O autor deste artigo, quando reitor da USP e ainda hoje, vem expondo em escritos diversos o conceito de uma universidade generosa, empreendedora, crítica e plural. Nela, tudo depende de todos, mantido o sistema de representatividade que valorize o compromisso histórico com a instituição. Voltada para o aperfeiçoamento de suas políticas internas, culto aos valores humanos e debate dos grandes temas nacionais, a academia terá correspondido ao investimento público e às expectativas da sociedade. Ela deve ser tomada igualmente como um sistema aberto, constituído por milhares de células vivas – alunos, professores, funcionários e dirigentes – agrupados na gestão central, departamentos, núcleos, institutos, faculdades, museus. São estas células que têm assegurado, com êxito, a realização de metas e a preservação do pacto universitário firmado em 1934 e sempre renovado ao longo dos 70 anos da USP.
Professores de notória convicção liberal e até conhecida militância na esquerda democrática, opõem-se ao sistema da eleição direta para reitor. A propósito, relatarei o segundo fato referido no início deste artigo, que também ocorreu durante a minha gestão reitoral. Ocorreu, para ser exato, no dia 14 de setembro do ano 2000 e foi, para mim, uma experiência inesquecível. Naquele dia, atendendo a um convite do DCE, resolvi participar da instalação do Congresso dos Estudantes da USP – evento que anunciava em sua programação duro questionamento às práticas da Reitoria. Já fora informado por telefone que teria cinco minutos para falar, um pouco antes do Professor Antonio Candido – que seria o palestrante da sessão de abertura.
Entrei no Anfiteatro e percebi, em torno, olhares de perplexidade. Havia cerca de 400 alunos na platéia e um grupo de 20 deles, não mais do que isso, começou a gritar “Reitor, ditador!”, tentando puxar uma vaia, sem ressonância. Dirigi-me ao palco e sentei-me junto a um dirigente do Diretório Central de Estudantes (DCE). Este fez um comentário inicial em que explicitou, com ênfase, sua posição favorável a uma eleição direta para reitor e representação partidária de alunos e professores no Conselho Universitário. Em seguida passou-me a palavra e estendi-me, no tempo disponível, sobre as tensas relações daquele momento entre o DCE e a Reitoria. Lembrei que os dirigentes universitários, vistos equivocadamente pela representação estudantil como patrões ou detentores de poderes imperiais, na verdade exercem transitoriamente funções executivas. E subordinam-se, todos, à soberana decisão de colegiados em vários níveis, eleitos pela comunidade acadêmica. Concluí exortando todos a um diálogo sereno, mesmo a partir de idéias eventualmente opostas. Um diálogo em que prevalecesse a noção de que a amizade sempredeve sobreviver aos desacordos.
Concluído o meu discurso, falou o Professor Antonio Candido. Ele prestou riquíssimo depoimento sobre a sua trajetória na Universidade de São Paulo, desde os tempos de estudante. E aí aconteceu o fato de maior impacto naquela tarde, que agora resgato para o contexto deste artigo. Antonio Candido, surpreendendo os diretores do DCE, declarou-se contrário à eleição direta para reitor e à paridade no Conselho Universitário. E acrescentou que, embora discordando francamente de algumas posições do diretor do DCE, jamais o vaiaria por assumir estas posições. Foi delirantemente aplaudido por toda a platéia.
Os grupos que contestam o critério vigente nas eleições da USP escudam-se, em defesa de suas posições, na evolução política do País. A memorável campanha cívica em prol de eleições diretas para a Presidência da República, em 1984, é por eles indevidamente apropriada, como se coubesse relação entre um fato e outro. Não cabe. O voto direto para eleições gerais na sociedade fundamenta-se no princípio de que todos os brasileiros são aptos a escolher o seu presidente, tendo em vista que o poder, na organização democrática, emana do povo – este, fora de dúvidas, um ente social permanente.
Na universidade, porém, o referencial permanente é o seu corpo de professores, porque tem ele, na missão acadêmica, um projeto de vida inteira. Os estudantes freqüentam o campus temporariamente, durante seus cursos, e os dedicados funcionários nele permanecem enquanto não surgirem, no mercado de trabalho, melhores oportunidades.
Claro está que não pode haver paridade na votação e que o corpo docente deve ter um peso maior na definição dos destinos da academia. Estas razões, alinhadas às demais invocadas nas linhas anteriores, em especial a de notória competência dos candidatos, devem nortear a escolha de um reitor. Vincular o funcionamento da instituição aos interesses do sindicalismo interno e posições corporativas ou partidárias é o mais grave erro que se pode cometer numa escolha reitoral.
A pregação do voto direto na sucessão de um dirigente acadêmico não teve, e jamais terá, o caráter representativo que sempre alcançou nas decisões da sociedade civil. Espera-se, em nome da racionalidade e das melhores experiências, que este discurso equivocado, cada vez mais frágil, em breve seja definitivamente esquecido.

Jacques Marcovitch é ex-reitor da USP e professor  titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA). O presente artigo foi escrito como texto-base para conferência realizada em 8 de março de 2005 no Instituto de Estudos Avançados (IEA) e publicado pela Edusp no livro  Ensino Superior – Conceito e Dinâmica, organizado por João Evangelista Steiner e Gerhard Malnic.


Fonte: Jornal do Campus in Debate: Diretas já? O atual modelo de eleições para reitor na USP é o mais democrático?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Eleição para reitor e vice-reitor da UFF

Comissão divulga datas para inscrição de chapa

As inscrições das chapas serão realizadas pelos próprios candidatos a reitor e vice-reitor, na Secretaria da Comissão Eleitoral, que funciona anexa à Sala dos Conselhos Superiores da UFF, 3º andar do prédio da Reitoria, nos dias 23 e 24 de março, das 10h às 17h, em formulário fornecido pela Comissão. Os documentos necessários estão no edital (link abaixo).

A consulta à comunidade universitária será realizada nos dias 4, 5 e 6 de maio, em horários e locais a serem divulgados. Caso haja necessidade de 2º turno, este será realizado nos dias 18, 19 e 20 de maio.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A FALÊNCIA DO MODELO ACADÊMICO BRASILEIRO


por Ryon Braga

A ciência enfrenta atualmente o que talvez possa ser considerado o seu momento mais crítico, demonstrado pelas inúmeras divergências e incertezas que povoam as lides acadêmicas. Este momento tem sido descrito por muitos como o da crise das teorias, crise dos modelos e crise dos paradigmas, restando à educação apenas a possibilidade e o dever de sair na frente, concebendo uma práxis pedagógica que capacite ao educando lidar com as dúvidas, divergências e incertezas inerentes ao conhecimento moderno.

A especialização dos papéis sociais, na sociedade tecno-científica, não fez desaparecer, antes pelo contrário, intensifica ou cria a necessidade de um saber global a respeito da sociedade. No entanto, a “modernização” da educação se identificou apenas com a intensificação de seus aspectos técnicos e científicos, gerando um perigoso preconceito em nossa sociedade positivista - de que a necessidade de uma educação humanista contextualizada ao avanço técnico-científico está destinada a tornar-se obsoleta.

O ensino superior no Brasil ainda reserva o lugar de honra para as profissões tradicionais, muito lentamente abre espaço para novos públicos, e começa, apenas timidamente, a responder a demandas de curto prazo do mercado de trabalho.

A ignorância quanto à necessidade de serem tomados novos rumos para a educação não é individual, mas coletiva, visto estar impulsionada pelas deficiências epistemológicas e paradigmáticas da ciência positivista convencional, com a qual a pedagogia se encontra grandemente comprometida.

O conhecimento transmitido é fragmentado e não associado às experiências do educando, tornando difícil o seu uso prático, e se caracterizando mais como objeto de manutenção do já estabelecido e de adestramento do aluno.

A educação compartimentalizada que predomina nas lides pedagógicas atuais, torna difícil a tarefa de pensar e agir globalmente. O ser humano como um todo, e no aspecto profissional mais especificamente, não se encontra preparado para enfrentar a crescente complexificação da realidade que o envolve, tornando-se incapaz de enfrentar os problemas globais de sua área, que exige muito mais do que uma formação polivalente, exige uma mentalidade e uma atitude interdisciplinar, holística e sistêmica.

O profissional de qualquer área do saber acompanha, perplexo, o crescimento exponencial da quantidade e da complexidade do conhecimento em sua área. Em vista disto, o modo de produzir e tratar o conhecimento pela fragmentação sucessiva esgotou sua possibilidade de continuar a contribuir para o avanço do saber em sua área.


Imaturidades do modelo acadêmico brasileiro
  Ausência quase total de interdisciplinaridade;
  Fragmentação do saber, o reducionismo e as subespecializações (a chamada patologia do saber);
  Crise da falta de fundamentos para com o conhecimento produzido pelas pesquisas científicas protocolares;
  Limitado desenvolvimento do espírito crítico;
  Incapacidade que a "ciência" tem de pensar sobre si mesma de modo científico;
  O "establishment" científico que criou um sistema de credenciamento do saber através de "filtros", como diplomas e títulos (M.D., Ms.C., Ph.D etc), maneiras de assegurar um compromisso ideológico dentro de uma estrutura de poder, mistificando o conhecimento e dificultando a sua renovação;
  Manutenção de "crenças" científicas sustentadas pela autoridade;
  Dependência cultural dos interesses econômicos;
  Personalismo e corporativismo acadêmico.

A Universidade tem representado os aspectos institucionais das atividades educativas, evidenciando todas as facetas do ordenamento social, caracterizadas por um acentuado intelectualismo supervalorizando o Homo sapiens e subestimando o Homo faber, ignorando, de certa forma, a natureza do processo de conhecimento da comunicação cognitiva através da experiência vivida.

A formação profissional deve ser orientada por um projeto educacional que articule ensino, pesquisa e extensão com diretrizes definidas. Não se trata de transformar a Universidade numa linha de montagem de profissionais medíocres, mas tornar o sistema educativo superior baseado na experiência de vida, de modo a assegurar maiores probabilidades de conduzir, com êxito, o processo integrativo e a fixação de conhecimentos, o que não vem ocorrendo, dentro dos padrões educativos tradicionais.

O ensino de sala de aula e mesmo de laboratório, pode oferecer uma formação incompleta, de modo que a experiência, sob a forma de atividade, de trabalho prático apresenta-se com complementação ou como parte do processo ensino-aprendizagem e pode constituir-se na própria aprendizagem ou na própria vida.

O estudo teórico e a atividade prática, num só processo, como parte da educação integral, aliam numa feliz combinação o desenvolvimento de todas as potencialidades do estudante. (DEMO, 1993, p.75)

Considera-se como aspectos fundamentais do processo educacional: a aquisição do conhecimento; desenvolvimento das faculdades cognitivas (pensamento e raciocínio); desenvolvimento de valores e atitudes; e mecanismos para por em prática as atividades necessárias à consecução dos valores e atitudes desenvolvidas. No Brasil, no que se refere a estes aspectos, talvez apenas o primeiro seja atendido, ainda que de forma insatisfatória.
Neste meio acadêmico a interdisciplinaridade é vista apenas em termos de compatibilização de conteúdos de disciplinas, visão míope, própria dos afeitos ao comodismo de práticas emboloradas pelo tempo.


Algumas deficiências do processo educacional atual
  Postura linear de transferência de conhecimento - professor/aluno, aquele, equivocadamente, tentando interpretar a experiência cultural para este;
  Problema da competição descarada ou subliminar, dos rótulos (melhores, piores, disciplinados, indisciplinados, problemas, etc.);
  "Papagaiada", ou seja, é comum aos alunos repetir o que o professor "quer" nas avaliações e, aos professores, repetir o que as últimas teorias apontam, sem nenhum exercício de crítica ou contextualização;
  Aceitação de que a ciência é isenta de valores, pois estes são absolutos e não interessam ao método científico;
  Crença de que a verdade é absoluta, objetiva e existe independente do sujeito cognoscente;
  Admissão da percepção sensorial como fonte básica do conhecimento da verdade;
  A-historicidade e descontextualização dos fenômenos estudados;
  Compreensão do conhecimento apenas de forma linear e seqüencial;
  Necessidade de "pseudo-garantia" de objetividade, ao distanciar e isolar o observador do objeto observado;
  Uso excessivo de parâmetros quantitativos para a apreensão de uma realidade eminentemente qualitativa;
  Exagero na aplicação da lógica dedutiva, incorrendo muitas vezes em conclusões falsas baseadas em premissas verdadeiras e vice-versa.


A atual dinâmica do saber convida a Universidade a participar da fabricação do futuro, deixando de ser mera retransmissora do “já sabido” e passando a assumir o seu verdadeiro papel na construção e contextualização do saber, que dada a complexidade do real, só se constrói no pragmatismo interdisciplinar entre os saberes.

1. O professor universitário e sua postura
O retrato do professor de ensino superior no Brasil não é uniforme, destacando-se 3 grupos distintos de docentes, a saber: (SCHWARTZMAN; BALBACHEVSKY, 199?, p.18)


a) Nas instituições privadas e estaduais predominam os professores em tempo parcial, sem estabilidade e com baixa especialização acadêmica, dando um grande número de aulas e prestando serviço ao setor privado;


b) Nas instituições públicas federais predominam os professores de qualificação média, estáveis, de tempo integral, com grande envolvimento em atividades sindicais e corporativistas e produção científica relativamente pequena;


c) Em algumas poucas instituições de referência predominam os professores mais qualificados, envolvidos em pesquisas com financiamento próprio, com pouca participação sindical e grande envolvimento acadêmico.


Diante do quadro atual da situação do professor de ensino superior, é mais razoável apostar no fortalecimento do vínculo do professor com sua profissão de origem, mantendo o pluralismo de suas identidades profissionais, do que esperar que a sua profissionalização universitária se complete de forma adequada.

Neste sistema, o professor encontra-se em um grande imobilismo. Preso pelos rituais de sua prática pedagógica, protegido pelo hermetismo de sua linguagem, encarcerado pelo autoritarismo político-institucional, afunda-se cada vez mais no dogmatismo de seus ensinamentos, esquecendo de questionar o seu saber e sua prática.

Por outro lado, não mais se justifica “acusar” apenas o sistema ou a política educacional, uma vez que é bem sabido que a acomodação e o automatismo mental de muitos docentes (provavelmente a maioria) são cúmplices na manutenção da “ordem estabelecida”

A verdadeira tarefa do educador é a de dar ao educando um ensinamento que o leve a compreender que é ele mesmo que deve assumir a sua própria educação. “Ensinar a aprender, a se construir ou a se reconstruir: eis o papel do educador. Todo o progresso na educação está na construção do espírito e não em sua domesticação”. (JAPIASSU, 1992, p.87)



2. O Sistema de disciplinas isoladas e a fragmentação do ensino

Na universidade ainda predominam as funções de distribuição do conhecimento ou do inculcamento do saber dogmatizado, quando na verdade, já era hora de predominar, de forma indissociada, a pesquisa e promoção do conhecimento, a reflexão e a crítica, desvinculadas o máximo possível das ideologias político-administrativas. Chegar-se-á, em breve, o dia em que predominará o despertar do saber continuado, não confinado ao tempo escolar.

Segundo JAPIASSU (1992, p.86), é proverbial o espírito conservador das universidades. Seu reacionarismo tem um pânico do novo que questiona e abala as estruturas mentais. Historicamente, elas sempre foram assim. Não foi por acaso que rejeitaram, durante muito tempo, as inovações da ciência moderna. Também não é por acaso que os saberes hoje mais vivos e mais audazes encontram-se fora dos quadros universitários. Elas sempre chegam atrasadas em relação aos novos saberes, às novas formas de conhecimento. Preferem ensinar o já sabido, transmitir o já estabelecido ou reproduzir o já produzido. Não partem do pressuposto que compreender é inventar ou reconstruir por invenção.

O caráter disciplinar rígido do ensino brasileiro induz, quase que obrigatoriamente, à utilização de um modelo extensivo de currículo decorrente do contexto específico reprodutivo e tradicional do ensino-aprendizagem como didática exclusiva, cujos pressupostos mais marcantes, segundo o pensamento de Pedro DEMO (1993), são:


a) O sistema educativo é baseado no repasse de conhecimentos por parte de uma figura chamada professor e recebida por um paciente chamado aluno.


b) A didática monta contexto mais ou menos rígidos, no qual alguém num lado ensina e outro apenas aprende; nem o professor se distingue pela capacidade de construir, porque basta repassar, nem o aluno é desfiado a pelo menos recriar o conhecimento disponível.


c) O mero ensinar e o mero aprender tendem a provocar currículos extensivos, na qualidade de aulas necessárias para cobrir faces discerníveis de uma disciplina, sem falar na característica extensa do repasse de matéria.


d) Assim como do lado do professor trata-se de ensinar, o lado do aluno trata-se de aprender, ou seja, de assimilar disciplinadamente conhecimento disponível, sendo avaliado pela adequação adaptativa deste posicionamento, na típica atividade de objeto de ensino-aprendizagem.


Este modelo extensivo de currículo aliena o aluno fazendo com que ele simplesmente assista às aulas, não permitindo que leia ou freqüente a biblioteca por compreensível falta de tempo, ficando o seu aprendizado baseado somente em sala de aula, com anotações realizadas nas mesmas, anotações estas que serão praticamente decoradas para serem respondidas nas provas realizadas com objetivo de avaliar o conhecimento adquirido.


 A impossibilidade de tempo livre principalmente no último ano de curso também provoca ansiedade quanto ao seu destino profissional, pois ao sair da escola o jovem profissional deveria oferecer contribuição satisfatória, imediata, efetiva, mas ele iniciará um novo aprendizado e só estará realmente preparado para a vida produtiva quando absorvido no contexto da empresa, e, sem tempo não poderá conciliar as duas atividades, a prática e as atividades relacionadas com o curso.



3. Anacronismos Pedagógicos

 Quanto à dicotomia entre teoria e prática, esta problemática transcende, em muito, o que é feito nas escolas, onde professores de diferentes matérias procuram destacar dentro do conteúdo da sua área aspectos que evidenciem a utilidade prática do conhecimento teórico. Entretanto, devido à progressão geométrica do conhecimento, este artifício já demonstrou ser ineficaz.

A análise do sistema de ensino universitário, sob este aspecto, não deixa de ser desencorajadora, pois as tentativas de inovação neste sentido, constituem tímidas tentativas ou meros ensaios e não se vê neles, a implantação de um processo flexível, que evite a frustração do jovem ante o divórcio entre a teoria e a prática.
 Escrito há quase 10 anos, mas profundamente atual, o texto que segue é a mais clara demonstração da inconsistência do ensino no Brasil.

“É muito comum ainda encontrar na escola alunos que estudam apenas para prestar exames e elaborar trabalhos que (e se) valem nota, barganhando com os professores insignificantes resultados da transferência de conhecimentos. E, apesar da corrente confissão sobre a efemeridade dos resultados deste estudo (poucos dias após as provas já não se lembram do que estudaram), os professores, até os ‘bem intencionados’, insistem em manter essas ‘práticas’ como única forma de fazer com que o aluno ‘estude’. Artificializar o estudo, não percebem, corresponde menos ao distanciamento entre teoria e prática, e muito mais à ausência de relação entre si - escamoteamento da realidade - confronto/oposição irreal entre ambas. Embora irreal, essa imagem é freqüentemente ‘inventada’ e encenada nas escolas. É inútil, pois não é através dela que a escola consegue fazer o aluno estudar verdadeiramente. Talvez seja útil apenas para manter relações de poder. É nessa ficção, pois, que se cria o discurso favorável ao desenvolvimento do espírito crítico, simultânea e incoerentemente à prática da inculcação do valor absoluto do conhecimento.(...) A relatividade do conhecimento - princípio elementar da teoria - não tem espaço na escola; o questionamento - substrato do raciocínio - não é admitido sequer para desenvolvê-lo”. BOCHNIAK (1992, p. 52).

Caracteriza-se aí uma opção pela submissão ao conhecimento teórico ao invés de contextualizá-lo na prática social efetiva. Isto faz com que o aluno seja um mero reprodutor acrítico das teorias apresentadas pelo professor, e este por sua vez, apenas um intérprete de idéias preestabelecidas pelo modelo sociocultural dominante, além de que, ele (o professor) toma para si a função de intérprete da realidade social, impondo ao aluno a sua visão de mundo.

O questionamento do conhecimento não significa nem supõe que sempre se tenha que duvidar ou discordar dele. Questionar é uma atitude muito mais abrangente, envolvendo exercícios de análise e síntese, num universo de contradições e não-contradições, possibilitando ao homem o reconhecimento ou não de sua veracidade, a qual, em último caso, jamais será absoluta.

O momento atual prevê uma mudança de postura também do aluno, que abandona seu papel passivo e passa a colaborar ativamente na formação do seu saber. Esta histórica passividade discente não se dá, nem nunca se deu por vontade deste, mas sim devido a internalização de papéis impostos pelos modelos pedagógicos tradicionias, fazendo com que o aluno tenha que “calar-se”, pois ele já não espera obter da escola o prazer de aprender, nem tampouco que a educação esteja ligada às suas condições reais de vida.

A visão interdisciplinar e holística do ensino traz em seu bojo o desprezo por qualquer mecanismo que gere competição, a não ser a auto-competição no sentido de auto-superação permanente, na busca incessante de cada um em progredir cada vez mais. Em lugar da competição, estimula-se a participação, o comprometimento com a busca e aquisição do saber. O trabalho interdisciplinar em sala de aula deve optar por uma eliminação geral, radical e irrestrita de qualquer mecanismo de reforço comportamental, quer seja de “prêmios” quer de “castigos” para que nada se interponha ao valor do trabalho, senão seu próprio valor. O que vale é o processo e não tanto o resultado final.

O problema do modelo behaviorista na psicopedagogia, mantendo a ideologia do reforço (negativo ou positivo), baseado no condicionamento operante torna a educação escolar semelhante ao adestramento de animais, com castigos e recompensas. Age-se como se não fosse possível, ou pelo menos, não fosse desejável associar o ensino ao lazer e à satisfação. Em outras palavras, a incompetência da escola em cumprir a sua função social e educacional é de tal forma evidente, que somente a acomodação, a cumplicidade com ideologias deturpadas e a obnubilação da lucidez imposta pelo sistema vigente podem explicar o porquê de tão grande resistência à mudança.


Sugestões para a dinamização do processo educacional no ensino superior

a) 
Elaboração de Pesquisas Coletivas, onde exista uma pesquisa nuclear que catalize as preocupações dos diferentes pesquisadores e pesquisas satélites onde cada um possa ter o seu pensar individual e solitário;


b) Inclusão de um espaço denominado de “Laboratório do saber” - que abrigará atividades como: questionamentos sobre o conteúdo das disciplinas; estabelecer relações entre as mesmas e entre estas e a vivência cotidiana; contextualizar o conhecimento aprendido; dar vazão à criatividade, como por exemplo, produzindo ensaios. Neste laboratório o professor é um orientador, jamais dando respostas prontas ou servindo de arquivo para o repositório de dúvidas dos alunos;


c) Desenvolvimento de trabalhos em parceria, pois como diz FAZENDA (1994b, p. 153), “O educador precisa sempre estar se apropriando de novos e infinitos conhecimentos. O tempo para isso é curto, como curta é a vida. A vida se prolonga na confluência das outras vidas, que também são curtas, que também são breves, mas que juntas podem se alongar e assim se eternizar.


d) Utilização de Simulações como recursos didáticos: são estratégias que procuram simular algum aspecto da realidade, colocando o aluno bem próximo às situações de vida, possibilitando um feedback imediato acerca das conseqüências, atitudes e decisões. No ensino superior as simulações têm como objetivo principal o desenvolvimento de atitudes dos alunos e secundariamente os seguintes objetivos: (GIL, 1990, p.82)

  • estimular a reflexão acerca de determinado problema;
  •  promover um clima de descontração entre os alunos;
  • favorecer o auto conhecimento ;
  • desenvolver  empatia;
  • analisar situações de conflito;
  • desenvolver atitudes especificas;
  • desenvolver habilidades especificas



e) Incentivo ao Estudo Independente, através de instrumentos de E-learning, com uma metodologia centrada no estudante. Este tipo de ensino apresenta as seguintes caracteriticas:
·         respeito ao ritmo de aprendizagem de cada aluno;
·         individualização da avaliação;
·         propicia formas alternativas  de instrução e conteudo;
·         delega ao estudante maior autonomia  intelectual;
·         facilita ao estudante a aquisição de maior confiança em seus recursos e o alcance de certas metas que não atingiria em outras situações.



f) Opção por regimes acadêmicos mais flexíveis, que valorize mais a vida do aluno do que a disciplina acadêmica. A opção por um ensino superior centrado no estudante leva ao desaparecimento do monopólio universitário na concessão de diplomas, bem como à “queda da sabedoria tradicional dos professores que sozinhos determinavam o que o estudante deveria estudar e saber”. (SANTOS FILHO, 1989, p.104)


g) Estímulo ao uso de metodologias de ensino baseadas na interação. São muitos os métodos baseados na interação, entre eles: a discussão; o Phillips 66 e 22; o debate; a mesa redonda; o seminário; o simpósio; o painel; o diálogo, a entrevista; o Role Playing (desempenho de papéis); o estudo de casos e o Brainstorm (tempestade cerebral )
 h) Implantação nas universidades de “células” ou centros que integrem diversos departamentos, visando objetivos, metas e aplicabilidade afins, diminuindo, desta forma, o reducionismo e o “poder” político da estrutura departamental, que reforça o caráter monodisciplinar das universidades.


i) Implementação em algumas áreas da metodologia do Aprendizado Baseado em Problemas, com o estudo centrado em cases reais.


j) Promoção uma análise conjunta dos objetivos a serem atingidos por cada uma das disciplinas do curso, e nortear o programa das mesmas a partir destes objetivos.


k) Estabelecimento de um programa de integração dos professores e alunos com a realidade da profissão e necessidades do mercado, bem como com os avanços tecnólogicos e científicos e ainda, com as tendências futuras para a área.


l) Avaliações participativas periódicas, como forma de detectar a falta de interdisciplinaridade em cada uma das práticas do ensino, bem como demonstrar avaliar quais as melhorias trazidas pela interdisciplinaridade.


m) Implementação do currículo intensivo (DEMO, 1993). Entende-se por currículo intensivo aquele comprometido com o desempenho construtivo, qualitativo do professor e do aluno, sinalizando principalmente pela atividade da pesquisa como atitude básica e cotidiana. Ao invés da cobertura quantitativa extensa, realizada através de inúmeras matérias para dar conta de facetas da disciplina opta-se pela habilitação metodológica para produzir com autonomia, um contexto didático fundado na pesquisa e na elaboração própria. Currículo intensivo tem a pesquisa como atividade cotidiana, exigências didáticas baseadas e inspiradas no aprender a aprender ou no saber pensar, contrapõe-se às tendências reprodutivas, ao ensinar a copiar. Neste contexto, cabe fundamentalmente produzir conhecimento próprio para evitar a condição de sucata histórica, estigmatizada pela reprodução copiada de conhecimento alheio. Este tipo de currículo tem de imediato a vantagem qualitativa de forjar o profissional dotado de elaboração própria, autonomia produtiva metodologicamente competente. Será capaz de enfrentar novos desafios, atualizar-se, porque aprendeu a pesquisar.




CONSIDERAÇÕES  FINAIS





A consciência do fenômeno de interdependência global já ultrapassou o restrito círculo das lideranças intelectuais para se difundir por todo o meio acadêmico e até mesmo fora dele. Uma vez identificada e compreendida esta realidade, parte-se agora para a elaboração das bases paradigmáticas e epistemológicas adequadas a esta nova realidade. Entretanto, isto traz a necessidade de muitas mudanças, de mudanças fundamentais que envolvem nossa maneira de pensar, de perceber, de agir e principalmente, de rever os nossos valores. Isto facilita a compreensão do porque já se fala tanto destes assuntos, mas aplica-se  tão pouco

Ao se examinar os diversos setores da educação, do ensino primário ao superior, constata-se com grande decepção que poucos foram os modelos holísticos elaborados e menos ainda adotados que tenham trazido alguma ajuda significativa ao crescimento do indivíduo e do processo educacional. Mesmo reivindicando um modelo interdisciplinar, a maioria das pessoas contenta-se com um dispositivo mecanicista de sistemas interligados, de interconexões, de estímulos e respostas.

As universidades necessitam repensar sua missão e defini-la segundo modalidades que reconhecem as verdadeiras contribuições do corpo docente. Além da arte especializada da descoberta, seria preciso reconhecer a arte da integração que opera a síntese dos resultados já obtidos e lança pontes entre as disciplinas; bem como a arte da aplicação que presta serviços à coletividade. É necessário também que se reveja a arte do ensino, enquanto necessidade de horizontalização da relação professor/aluno, na busca da formação de futuros pesquisadores.

4.Sugestões bibliograficas





BOCHNIAK, Regina. Questionar o conhecimento: interdisciplinaridade na escola. São Paulo: Loyola, 1992.  147p.
BRAGA, Ryon. Integração Terapêutica: Uma proposta transdisciplinar com base nas pesquisas da medicina e psicologia da consciência. Londrina: Universalista, 1995.  157p.
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. [The turning point] trad. Álvaro Cabral.      São Paulo: Cultrix, 1982,  447p.
DEMO, Pedro. Desafios Modernos da Educação. São Paulo: Vozes, 1993.      272p.
FAURE, Guy Olivier. A constituição da interdisciplinaridade. Rio de Janeiro. Rev. Tempo Brasileiro, v.108, jan./mar., pp.61-68, 1992.
FEYERABEND, Paul. Contra o método. [Against method] trad. Octanny S. da Mota e Leonidas Hegenberg. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.  488p.
GRECO, Milton. Interdisciplinaridade e revolução do cérebro. 2.ed. São Paulo: Pancast, 1994.  172p.
JAPIASSU, Hilton. A atitude interdisciplinar no sistema de ensino. Rio de Janeiro: Rev. Tempo Brasileiro. v.108, jan./mar., pp.83-94, 1992.
_______, Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976. 165p.
LÜCK, Heloísa. Pedagogia interdisciplinar: fundamentos teórico-metodológicos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.  92p.
MORIN, Edgar. O método III. O conhecimento do conhecimento. Lisboa: Europa-América, 1987.  229p.
_______. O problema epistemológico da complexidade. Lisboa: Europa-América, 1985.
_______. A natureza humana: o paradigma perdido. 4.ed. Lisboa: Europa-América, 1988.
REZENDE, A. M. O saber e o poder na universidade: dominação ou serviço. São Paulo: Autores Associados, 1987.
SCHWARTZMAN, Simon; BALBACHEVSKY, Elizabeth. A profissão acadêmica no Brasil. São Paulo: NUPES - SP, [199_].  20p.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

RITOS ACADÊMICOS

por Marco Aurélio Nogueira

 Professor de Teoria Política da Unesp, é autor dos livros Em defesa da política (Senac, 2001) e Um Estado para a sociedade civil (Cortez, 2004). 


Na universidade dos nossos dias, há muito mais que crise financeira e de gestão, muito mais que dificuldade para entrar em sintonia com o mundo. A crise se aprofundou tanto que passou a afetar o cerne da vida acadêmica” 


Concursos de provas e títulos, de acesso e de defesa de teses de pós-graduação compõem boa parte do cotidiano das universidades brasileiras. É por meio deles que a academia seleciona seus quadros, diploma seus especialistas e reconhece o mérito de seus professores, possibilitando-lhes uma carreira de longo prazo.

Ao menos naqueles que dizem respeito ao corpo docente, a questão intelectual ocupa o posto de honra. Ou deveria ocupar. Os concursos para livre-docência, por exemplo, têm no mérito científico a sua peça de resistência. Também é assim com as bancas de defesa de tese. Já os concursos para prover cargos de professor titular são mais amplos, pois coroam a carreira docente, configurando seu último degrau e dando, a seus ocupantes, a condição de cidadãos plenos da universidade. 

Os titulares foram concebidos para figurar como reservas políticas, científicas e morais das instituições acadêmicas. Somente eles, por exemplo, podem ser candidatos a reitor ou a pró-reitor nas grandes universidades de ensino e pesquisa. Justamente por isso, concursos deste último tipo são cercados de rigorosos pré-requisitos: longa trajetória docente, expressiva produção científica na área em questão, envolvimento efetivo com as diversas atividades acadêmicas, experiência comprovada de orientação e formação de pesquisadores, estágios e estudos complementares no exterior, obtenção de bolsas de pesquisa e assim por diante. 

As bancas, formadas por reconhecidas autoridades intelectuais, devem submeter os candidatos a provas substantivas e duras, no correr das quais são revistos diversos temas estratégicos, é contada uma história institucional e passada a limpo uma biografia intelectual. 

Até bem pouco tempo atrás, tais eventos costumavam ser cercados de grande expectativa, ensejavam uma saudável competição intelectual entre os pares e eram acompanhados com interesse e alguma vibração por alunos e professores.

Tudo isso está hoje suspenso no ar. Salvo casos isolados, os concursos perderam boa parte de sua dignidade. Há bem menos rigor neles, especialmente nos de maior relevância, que estão condicionados por muitas conveniências e acomodações. Também, por isso, produzem pouco impacto na instituição universitária e não sensibilizam seu povo. 

Tornaram-se eventos pequenos, acompanhados por familiares e amigos e ignorados por aqueles que circulam pelas faculdades. Nem sequer as defesas de tese têm força para despertar a disposição comunitária que deveria estar entranhada nos estudantes. Ninguém mais se mobiliza por elas ou para elas.

Passa-se o mesmo com os concursos para titulares, que carregam consigo as maiores honrarias e tradições acadêmicas. Concorrem a eles professores com carreiras consolidadas, normalmente veteranos em suas instituições e as provas incluem em lugar de destaque a avaliação de memoriais de atividades, concebidos para ser relatos analíticos e circunstanciados de uma trajetória intelectual. 

Deveriam, portanto, gerar amplo interesse institucional, agitar minimamente o corpo docente e discente, despertar polêmicas, torcidas contra e a favor. Quem não gostaria, por exemplo, de ver incensado seu mestre preferido ou desmascarado o professor pretensioso?

Nada disso, porém, ocorre hoje. Sobre tais eventos, pesa o silêncio da irrelevância. Os ritos e os procedimentos típicos da vida acadêmica estão sendo sufocados por agendas universitárias, pelo pragmatismo contábil das reitorias, pelo corporativismo de professores, funcionários e estudantes, pela massificação, pelo afã produtivista e meio predatório que contamina o dia-a-dia da universidade, pela horizontalidade que quebra as hierarquias e os atributos intelectuais.

Concursos de provas e títulos nunca foram, e jamais poderão ser, o capítulo mais importante do cotidiano universitário. Tinham o mérito, porém, de indicar caminhos e facilitar o autoconhecimento institucional, retendo e renovando tradições intelectuais. Por meio deles, professores e estudantes eram incentivados a se apropriar da história mais profunda da universidade, fortalecendo, assim, os laços comunitários de identidade e projeto. 

Os concursos converteram-se em procedimentos burocráticos, ritos esvaziados de densidade ética. Exceções à parte, destinam-se a distribuir cargos e diplomas, não a selecionar quadros ou a premiar méritos. São precedidos e seguidos por disputas mesquinhas, de bastidores, muitas vezes alheias a critérios de competência e merecimento. São acompanhados sem maior interesse institucional. Estão a correr o risco de se transformar em pastiche, imitação grosseira de estilos antigos, que já não mais respiram livremente.

Na universidade dos nossos dias, há muito mais que crise financeira e de gestão, muito mais que dificuldade para entrar em sintonia com o mundo. A crise se aprofundou tanto que passou a afetar o cerne da vida acadêmica, pulverizando suas rotinas, hierarquias e medidas. 

Nada que ocorre nas faculdades parece ter força para impactá-las como instituição, nem sequer os atos mais heróicos e rebeldes periodicamente praticados. Há alguns aplausos e certa torcida para que direitos se cristalizem, espaços se ampliem e certas reivindicações sejam vitoriosas, mas nada subsiste ao dia seguinte nem se acumula e produz novas qualidades.

Não há como pensar que os ritos acadêmicos possam permanecer imunes ao tempo e não sofrer o efeito das transformações sócioculturais. Brigar para que tudo volte a ser como antes seria uma batalha insensata, condenada à derrota. 

Mas é de esperar que uma instituição preciosa, como a universidade, por cujos espaços e estruturas correm os rios profundos da inteligência, seja capaz de reinventar a si própria, encontrando novas formas de fazer com que prevaleçam, em seu interior, as melhores práticas intelectuais e aqueles valores que ao longo do tempo a fizeram ser o que é.

(Publicado no O Estado de SP, 23/02/2008)